Numa sexta-feira quente mas tranquila, ouvi dizer de uma pessoa querida destilar veneno sobre a minha suposta "depressão e estranheza" perante uma mesa de pessoas que mal me conheciam. Ela transformou a minha recusa em alinhar nos seus habituais esquemas de poder e intriga familiares numa narrativa épica, onde eu era o tirano insensível e ela a mártir injustiçada. Enquanto ouvia aquela reescrita h... » Continue Reading
Na passada quinta-feira, enquanto bebia um copo de vinho natural excessivamente caro num terraço em Santos, observei um dos mais ferverosos ativistas anti-capitalistas da nossa praça a deslizar a mão pelas costas de um conhecido gestor de fundos de investimento. Vendo aquela perfeita coligação de interesses, onde a t-shirt de algodão orgânico com palavras de ordem roçava suavemente no linho de alf... » Continue Reading
Numa sexta à noite, em qualquer pista de dança razoavelmente bem iluminada desta cidade, há um fenómeno sociológico fascinante que ocorre exatamente entre a segunda e a terceira cerveja. Não tem a ver com a batida da música, nem com o calor da multidão. Tem a ver com a porta de entrada. Nós passamos a semana inteira a queixar-nos de que estamos sozinhos. Preenchemos o vazio com horas de ginásio, t... » Continue Reading
Numa cidade onde a maioria dos rapazes passa mais tempo a aperfeiçoar o perfil do LinkedIn e das aplicações de encontros do que a cultivar a própria personalidade, assumimos que chegar ao topo da cadeia alimentar seria o bilhete dourado para a felicidade amorosa. Passámos a nossa juventude a lutar por um lugar à mesa. Lemos os livros certos, vestimos as marcas certas, acumulámos promoções, milhas ... » Continue Reading
O lugar dele à mesa estava vazio pela terceira semana consecutiva, substituído por um "estamos cansados, vamos ficar por casa". A paixão tinha-o raptado da civilização. Olhei para o resto do grupo e percebi que estávamos a assistir, em tempo real, à morte de um indivíduo e ao nascimento de uma entidade siamesa e doméstica: o Casal em Hibernação. E não pude deixar de me pergunt » Continue Reading
A levantei-me da esplanada e, de repente, Lisboa ficou num silêncio absurdo, quase ensurdecedor. Não houve nenhuma tempestade cá fora, não houve uma banda sonora dramática a acompanhar o momento, nem o céu escureceu. Caminhei até ao Vasco da Gama e olhei para o rio: o trânsito continuava a fluir, as pessoas continuavam a caminhar apressadas com copos de café nas mãos, e o shopping mantinha o mesmo... » Continue Reading
Estava sentado no chão do quarto, rodeado por parafusos e prateleiras de aglomerado de madeira, a tentar montar um móvel sozinho enquanto me recusava, com uma teimosia doentia, a pedir ajuda a quem quer que seja. O meu orgulho em ser um adulto autossuficiente tinha-se tornado a minha própria prisão solitária. E não pude deixar de me perguntar: Estaremos nós a confundir a verda » Continue Reading
Enquanto analisava o preço de um copo noodles e uma lata de refrigerante no supermercado ao lado de casa, sofri uma colisão frontal com a minha própria banalidade. Aos dezoito anos, eu tinha a arrogância de achar que estava destinado a ser um prodígio, uma exceção à regra. E não pude deixar de me perguntar: Qual é o exato momento em que fazemos o luto por todas as coisas extra » Continue Reading
O Salvador queixava-se amarguramente do preço do fino no Intendente, enquanto ajustava, com um gesto perfeitamente estudado, o colarinho de um casaco vintage esburacado que lhe custara o equivalente à minha propina anual. Sentados numa tasca com o chão a colar e um letreiro néon a piscar de forma epiléptica, eu observava-o a enrolar um cigarro com a destreza de quem se orgulhava de viver com os tr... » Continue Reading
O meu domingo à tarde foi consumido por uma daquelas purgas domésticas violentas que nascem de uma súbita crise existencial. No meio do meu minúsculo apartamentom dei por mim rodeado de sacos do lixo, caixas de sapatos vazias e camisolas que já não me serviam, mas que eu guardava por pura e doentia inércia. Ao esvaziar a última gaveta da cómoda, encontrei um caderno antigo, daquelas agendas onde, ... » Continue Reading
Numa sexta à tarde, enquanto a desrrumação do meu quarto era iluminada pelos feixes de luz que entravam pela janela do meu quarto, os meus olhos fixaram-se numa revista esquecido em cima da mesa. Estava aberto, e mostrava uma sopa de letras deixada a meio. Uma grelha claustrofóbica, composta por centenas de consoantes e vogais espalhadas de forma aleatória, onde eu tinha tentado, com uma caneta ve... » Continue Reading
Enquanto ouvia o Tiago relatar, entre garfadas de um prego no pão, o seu terceiro colapso financeiro do mês e o regresso do ex-namorado cleptomaníaco, uma sensação horrível apoderou-se de mim: eu estava-me a sentir superior. A minha vida era um rascunho amador, mas ao lado do incêndio florestal que era a vida dele, eu parecia um diplomata suíço. E não pude deixar de me perguntar: Estaremos nós a e... » Continue Reading