O Sistema de Castas de Lisboa

O meu amigo Miguel sempre teve um radar apuradíssimo para o luxo, mas o seu saldo bancário insistia em mantê-lo na classe turística da vida lisboeta. No entanto, nas últimas semanas, o Miguel tinha conseguido um upgrade inesperado. O nome desse upgrade era Salvador, seguido de uma procissão de apelidos compostos que soavam a pracetas, estátuas de bronze e fundações de solidariedade.

O Salvador era a personificação exata do "dinheiro velho" da Lapa. A sua riqueza era silenciosa, desprovida de logótipos berrantes, feita de quadros a óleo herdados de trisavós, móveis de jacarandá maciço e uma invejável, quase insultuosa, ausência de ansiedade perante qualquer fatura.


Enquanto o Miguel me descrevia, com um misto de fascínio e terror, a sua nova rotina matinal nos lençóis de algodão egípcio de mil fios do Salvador, a verdadeira dinâmica de poder daquela relação tornou-se dolorosamente óbvia. O Miguel confessou ter passado 4 horas no dia anterior a procurar um quarter-zip de segunda-mão para usar com os seus sapatos de 200 euros, numa tentativa desesperada de atingir aquele ar de "sofisticação descuidada" que a aristocracia parece ter de nascença. Mas, à luz daquele quarto palaciano com estuques no teto, o seu esforço pareceu-lhe subitamente patético.

E não pude deixar de me perguntar: Será que a luta de classes ainda se trava no quarto? E quando a conta bancária de um deles é dez vezes maior que a do outro, será possível haver uma verdadeira igualdade na relação, ou somos apenas uma "obra de caridade" muito bem-parecida?


A igualdade é um conceito belíssimo na Constituição, mas entre quatro paredes e obras de arte catalogadas, a matemática social é impiedosa. Quando o Salvador pagava todos os jantares com estrelas Michelin, os fins de semana improvisados em resorts no Alentejo e as viagens de Uber Black sem sequer pestanejar perante o valor, a relação adquiria uma textura transacional, quase feudal. O cartão de crédito do Salvador tinha-se tornado a força motriz da intimidade deles.

Para compensar essa gritante falha de capital financeiro, o Miguel viu-se forçado a exercer uma exaustiva ginástica de compensação. O seu capital passou a ser a estética, o charme incessante e a disponibilidade absoluta. O meu amigo tinha-se transformado na plebe a tentar entreter a realeza com truques de magia, esforçando-se diariamente para justificar o seu lugar na corte e provar que "pertencia" àquela sala de estar sumptuosa.

O problema de namorar no topo do sistema de castas lisboeta é a perceção constante de descartabilidade. Por mais que o Salvador elogiasse o intelecto ou o sentido de humor do Miguel, pairava sempre no ar a sensação de que o meu amigo era apenas o seu ato de rebeldia boémia. O Miguel era o projeto de requalificação urbana do Salvador. O rapaz "giro e criativo" do centro da cidade, exibido nos jantares com os amigos do Restelo como quem mostra uma peça de artesanato rústico recém-comprada numa viagem exótica.


Vestir calças compradas nos saldos de janeiro em frente a um closet forrado a madeira de cerejeira é um ato de profunda e silenciosa resignação. Através da exaustão do Miguel, percebi que o sistema de castas de Lisboa nunca foi realmente abolido; apenas trocou as carruagens por jipes de alta cilindrada e os espartilhos por fatos à medida.

Nós podemos frequentar os mesmos ginásios, rir das mesmas piadas e até partilhar a mesma cama, mas no momento em que a luz da manhã ilumina a árvore genealógica pintada no hall de entrada, a ilusão romântica desfaz-se. O Salvador era uma vista deslumbrante, sem dúvida. Mas viver permanentemente em bicos de pés para tentar espreitar por cima do muro da aristocracia alheia provoca cãibras insuportáveis. E o Miguel estava, aos poucos, a perceber que a única cama onde realmente conseguimos descansar o coração é aquela onde não precisamos de apresentar a nossa declaração de IRS para ter o direito de respirar.


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