Naquela manhã de nevoeiro cerrado sobre o Tejo, a cidade de Lisboa parecia ter acordado com a mesma ressaca emocional que eu. O meu apartamento, habitualmente um refúgio de discos de vinil a tocar demasiado alto e garrafas de vinho abertas a meio, estava mergulhado num silêncio espesso e intransponível. Tinha acabado de fechar a porta ao capítulo mais importante da minha vida. O adeus tinha sido dito. A pessoa que eu mais amava já lá não estava.
A parte mais cruel de perder alguém; seja por uma separação irrevogável, por um voo só de ida para outro continente ou pela finalidade absoluta que não ousa dizer o nome; não é o momento da despedida em si. O adeus é adrenalina, é choque, é o embate do carro contra o muro. A verdadeira tragédia é o dia seguinte. É o momento em que acordamos, a poeira assenta e percebemos que o mundo teve a audácia de continuar a girar como se o nosso universo não tivesse acabado de colapsar.
Enquanto olhava para a chávena de café intocada na bancada da cozinha, num espaço que subitamente parecia grande e vazio demais para uma pessoa só, não pude deixar de me perguntar: Numa cultura que nos ensina detalhadamente como estar, ficar e tentar, porque é que ninguém nos preparou para o momento em que temos de abrir a mão e deixar ir? Será que o luto é apenas o amor que ficou sem ter para onde ir, a bater desesperadamente contra as paredes de um apartamento vazio?
Dizem-nos que o tempo cura tudo, esse grande cliché vendido em pacotes de autoajuda e conselhos de amigas bem-intencionadas. Dizem-nos para ir ao ginásio, mudar o corte de cabelo, apagar as fotografias do telemóvel e fazer reboot à vida. Mas a ausência não obedece a calendários. A ausência é uma permanência. Continuamos a sentir a presença da pessoa, continuamos a querer enviar-lhe aquele post estúpido que vimos no Instagram, continuamos a esticar o braço para o lado direito da cama a meio da noite, apenas para encontrar lençóis frios.
Lisboa transformou-se, subitamente, num campo minado de memórias. A cidade que antes era o nosso recreio tornou-se um arquivo implacável de fantasmas. Cada esquina do Príncipe Real, cada esplanada no Saldanha, cada bar onde bebemos gin até às quatro da manhã carregava agora o peso insuportável do "nós". É a gentrificação do coração: os espaços que antes nos pertenciam foram esvaziados e nós ficámos a olhar para a montra de uma loja fechada, lembrando-nos do que costumava estar lá dentro.
A sociedade exige-nos uma recuperação eficiente. Há uma pressa obscena para que voltemos a ser divertidos, e para que voltemos a encher os copos. O luto prolongado é visto como uma falha de caráter, uma falta de produtividade emocional. Mas a verdade é que sobreviver a um grande adeus exige que aceitemos a destruição. Exige que nos sentemos no chão da sala com a dor, sem tentarmos disfarçá-la com um casaco novo da Zara ou uns sapatos arranjados nos saldos.
Ao observar os carros a passarem lá fora, com pessoas absortas nas suas próprias vidas, percebi que a dor do adeus é o imposto de luxo que pagamos por termos tido o privilégio de amar alguém de forma tão absoluta. E não há esquemas de evasão fiscal para o coração. Temos de pagar cada cêntimo dessa dívida com noites mal dormidas e ataques de choro no corredor do supermercado.
Aos poucos, o silêncio ensurdecedor do apartamento vai-se transformar num silêncio habitável. Nós não ultrapassamos a perda das pessoas que mais amamos; nós simplesmente aprendemos a reorganizar a mobília à volta do buraco que elas deixaram. E, um dia, sem darmos conta, saímos à rua, o nevoeiro levanta, e voltamos a fazer parte da cidade. Carregando a ausência, sim, mas vestindo-a não como uma mortalha, e sim como a marca de quem teve a coragem de amar até ao fim.
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