Durante muito tempo, o meu objetivo foi simples: garantir que toda a gente gostava de mim. E, na maioria das vezes, resultava. Eu era charmoso, engraçado, fácil de estar por perto. Aprendi cedo a ler as situações sociais como se fossem um guião invisível e a dizer exatamente o que deixava os outros confortáveis. E eu não pude deixar de notar que, desde muito cedo, associei ser gostado a estar seguro. Encaixar parecia-me sempre uma opção mais inteligente do que me destacar. Então fiz o que qualquer pessoa com medo de ser rejeitada faria: construí uma versão de mim que toda a gente pudesse aceitar.
Tornei-me no amigo a quem pediam conselhos, o colega querido por todos, o rapaz que parecia sempre bem. Tornei-me fluente em ser agradável. Em concordar no momento certo. Em sorrir mesmo quando não me apetecia. Em nunca precisar de muito. Em ser aquele ombro funcional, sempre disponível, sempre estável, sempre “ok”. Criei um personagem socialmente eficiente, feito à medida do conforto alheio.
E, num piscar de olhos, isso tornou-me popular. Tornou-me seguro. Tornou-me querido. Mas também me tornou invisível. Porque há um preço escondido em ser o favorito: ninguém sente necessidade de nos conhecer de verdade. Conhecem a versão que nunca discorda, que nunca cria tensão, que nunca pede nada. Conhecem a pessoa que eu inventei para ser fixe, não a pessoa que sou quando deixo de representar.
O mais estranho é que eu construí relações, mas não construí proximidade. Juntei pessoas à minha vida, mas não deixei que se aproximassem de mim. E é por isso que posso estar rodeado de gente e, ainda assim, sentir-me profundamente sozinho. Porque aquilo que gostam em mim não sou eu. É a versão ajustada, educada, confortável. A versão que aprendeu que o amor se ganha por desempenho.
E eu não pude deixar de me perguntar quando foi que comecei a confundir aceitação com afeto. Quando é que troquei autenticidade por aprovação. Quando é que decidi que ser amado era ser útil, e não ser inteiro. Talvez tenha sido nesse momento que a solidão começou, mesmo no meio da multidão.
Durante muito tempo, fiz isto para me proteger. Para não ser rejeitado. Para não ser complicado. Para não ser difícil de amar. Mas, ironicamente, quanto mais me protegia, mais me escondia. E talvez a solidão não venha da falta de pessoas, mas da falta de risco. Do risco de ser visto como sou, com os meus dias maus, as minhas contradições, a minha parte menos prática e menos simpática.
Hoje percebo uma coisa com uma clareza quase cruel: eu não preciso de merecer amor. Não tenho de ser engraçado, útil ou fácil para ser escolhido. Não tenho de me tornar mais pequeno para caber na vida dos outros. Já não preciso de me proteger assim. Já não. Jamais.
O desafio agora não é ser melhor. É ser verdadeiro. É deixar de ajustar o tom para agradar. É permitir que vejam quando não estou bem, quando discordo, quando não sei, quando preciso, e quando quero. Porque as pessoas que me amam incondicionalmente não vão gostar apenas da minha versão socialmente aceitável. Vão reconhecer-me inteiro. Vão ver os meus problemas, os meus silêncios, os meus defeitos... e ainda assim ficar.
E talvez seja isso que eu sempre quis, mesmo quando fingia que não: não ser o favorito de toda a gente, mas ser real para alguém. Não por ser amado por adaptação, mas por existir.
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