Na quinta-feira à noite, dei por mim a olhar para o teto do meu apartamento num estado de pânico paralisante. O teto não estava a cair. O meu cartão de crédito não tinha sido recusado. O problema era infinitamente mais aterrador: eu estava feliz. Há exatamente uma semana que andava a sair com o Daniel e as coisas estavam a correr assustadoramente bem.
O Daniel não era um projeto de reabilitação. Não tinha "traumas não resolvidos", não desaparecia aos fins de semana porque "precisava de espaço para pensar" e as suas mensagens de texto não requeriam um painel de especialistas em criptografia para serem decifradas. Quando ele dizia que ia ligar às oito da noite, o meu telemóvel tocava às 19:59. Era doentio.
Passei os últimos sete dias à espera de que a máscara caísse ou que um piano de cauda me caísse em cima da cabeça. Revistei mentalmente os encontros à procura de defeitos na forma como ele segurava o copo de água. Tentei detetar traços de psicopatia na desorganização imaculada do quarto dele. Nada. Apenas um mar de estabilidade, águas mornas e navegação de cruzeiro. E eu estava a dar em louco.
Enquanto olhava para uma mensagem dele que dizia simplesmente "Tenho saudades tuas", sem qualquer duplo sentido passivo-agressivo ou distanciamento irónico, não pude deixar de me perguntar: Precisamos de problemas para fazer uma relação funcionar? Teremo-nos tornado de tal forma viciados na ansiedade de não saber onde estamos, que a estabilidade nos parece um erro de casting?
Nós, os solteiros crónicos da cidade, somos como bombeiros piromaníacos. Passamos anos a chorar nos balcões dos bares, a jurar que estamos exaustos dos jogos, das mentiras e dos homens emocionalmente indisponíveis que incendeiam a nossa autoestima. Exigimos um homem bom. Mas quando o universo finalmente nos entrega um edifício à prova de fogo, à prova de sismos e com seguro contra todos os riscos, não sabemos o que fazer com as mãos.
Condicionámos o nosso cérebro a ler o pânico como paixão. Acreditamos que se não estamos a chorar no chão da cozinha ao som de Adele, então não é amor verdadeiro. O drama tornou-se o nosso desporto radical favorito e, subitamente, o Daniel estava a convidar-me para uma partida de minigolfe.
Estar com ele era como entrar numa loja de luxo e comprar um casaco a preço de pronto, na nossa exata medida. Não houve empurrões na época de saldos. Não houve a adrenalina de arrancar a peça das mãos de outra pessoa. Estava apenas ali, disponível, à minha espera. E a minha mente distorcida, habituada à escassez, sussurrava-me que se era assim tão fácil de ter, talvez não tivesse valor.
A calmaria estava a dar-me náuseas. Dei por mim a pensar em criar uma discussão a partir do nada, a ponderar ignorar uma mensagem só para inserir um pouco de caos artificial naquela perfeição aborrecida. Eu estava prestes a esburacar o meu próprio barco salva-vidas só para ter o prazer dramático de me queixar que estava a afundar. Isto é, auto-sabotar-me.
Enquanto apagava a mensagem fria que quase lhe enviei, tive uma epifania aterradora. O problema nunca foram os bad-boys de Lisboa. O problema era eu. Eu tinha um medo de morte das águas calmas porque, secretamente, nunca aprendi a nadar sem estar a tentar não me afogar. E talvez o maior risco que podemos correr não seja saltar para o abismo, mas sim permitir-nos, pela primeira vez na vida, ficar em terra firme.
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