Não eram os olhos dele, um castanho comum que se pode encontrar em qualquer esquina do Bairro Alto. Não era o seu sentido de humor, que oscilava perigosamente entre o "tio do churrasco" e o "contabilista deprimido". Não, o que fazia o meu coração bater mais depressa, o que me provocava suores frios e fantasias eróticas incontroláveis, era o pé-direito de três metros e meio e a vista desimpedida para os jardins da Gulbenkian.
O Salvador era um "6" sólido numa escala de atração física, mas o apartamento dele na Avenida Ressano Garcia era um "10" absoluto. Tinha soalho de tábua corrida original, janelas de vidro duplo que calavam o caos da cidade e, o santo graal da vida lisboeta: um lugar de garagem.
Enquanto ele falava sobre a sua coleção de vinis de Jazz de fusão; um género musical que deveria ser ilegalizado pela Convenção de Genebra; eu dava por mim a mentalizar onde colocaria o meu sofá de veludo ou se a luz da manhã na marquise seria adequada para as minhas plantas. E não pude deixar de me perguntar: Numa cidade onde as rendas custam mais do que a dignidade humana, será que o "Imobiliário" se tornou a nova zona erógena do homem gay?
Antigamente, procurávamos inteligência, bondade, ou uns abdominais bem definidos. Hoje, a hierarquia das necessidades de Maslow foi reescrita pela especulação imobiliária. O abrigo subiu para o topo da pirâmide, empurrando a auto-realização e o amor para o sótão húmido das coisas secundárias.
Dormir em casa dele não era apenas um ato sexual; era um ato de turismo de luxo. Acordar em São Sebastião, longe da confusão turística da Baixa ou da humidade das caves baratas, dava-me uma sensação de segurança que nenhum abraço pós-coito alguma vez conseguiu replicar. Eu sentia-me protegido, não pelos braços do Salvador, mas pelas paredes sólidas de construção pré-1950.
Senti-me uma fraude. Estava a praticar uma forma muito específica de prostituição emocional: a "prostituição imobiliária". Eu não estava interessado na carteira dele, nem no carro dele. Eu era um gold digger de metros quadrados. Eu estava a trocar a minha companhia, o meu riso forçado e a minha disponibilidade sexual pelo privilégio de usar uma casa de banho com mármore verdadeiro e pressão de água decente.
Será que gostamos deles, ou gostamos apenas do facto de eles terem resolvido a equação mais difícil da vida adulta? O homem com casa própria tornou-se o novo príncipe encantado, e a chave de casa é o sapato de cristal que todos queremos que nos sirva.
Há uma crueldade nisto. O Salvador acreditava que eu estava fascinado pela sua personalidade, quando na verdade eu estava apaixonado pela sua despensa. Mas, numa selva urbana onde encontrar um teto é uma guerra sangrenta, talvez o amor seja apenas uma questão de logística. Talvez a compatibilidade não se meça pelos signos do zodíaco, mas pela conveniência geográfica.
Saí de lá na manhã seguinte, e nunca mais voltei, com o cheiro dos lençóis de algodão egípcio dele na minha pele. Enquanto descia a avenida, olhei para cima, para a varanda onde tínhamos tomado o pequeno-almoço. O apartamento era perfeito. O homem lá dentro era... aceitável. E numa cidade que nos pede a alma em troca de um aluguer, "aceitável" com uma boa localização começa a parecer-se perigosamente com o "felizes para sempre".
Talvez eu não o ame. Mas amo a ideia de viver tão longe que não o tenho de ver. E, por agora, numa Lisboa gentrificada e impiedosa, talvez isso tenha de servir como a minha história de amor.
Comments
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mixmixmixmix
de fato eu trocaria minha dignidade por um choveiro forte e uma vaga de estacionamento pra chamar de minha
relatable xx
casar-me e divorciar-me para arranjar casa em lisboa
by Ângelo Tomás; ; Report