Há dias em que acredito. A sério. Acredito que algures por aí, há uma pessoa que me entende com um olhar, ri das mesmas piadas estúpidas, sabe quando me calar e quando me desafiar, e nunca, mas nunca, deixa o telemóvel em silêncio durante mais de três horas seguidas e não faz orais de passagem de fato. Contudo, num outro dia, dei por mim a olhar em minha volta, e vi os casais em brunchs sem conver... » Continue Reading
Durante muito tempo, eu achei que o amor era uma espécie de eleição. Uma votação silenciosa onde tudo o que podias fazer era ser a melhor versão de ti mesmo e esperar que alguém, algures, colocasse o boletim certo na urna. Que alguém te escolhesse. E não de forma casual, ou prática, ou confortável - mas com convicção. Com intensidade. Como se tu fosses a resposta a uma pergunta que ele nem sabia q... » Continue Reading
Não há nada a fazer quando somos substituídos. A pessoa seguiu em frente - com outra face, outro cheiro, outra voz a ocupar o espaço onde antes éramos nós. E o pior nem é o facto em si. É a facilidade. A rapidez. O aparente desinteresse. Como se não tivéssemos pesado o suficiente para deixar marca. O lugar que eu ocupava afinal não era meu, era só alugado, sem contrato, com despejo imediato. Ela a... » Continue Reading
Vi Annie Hall numa noite de verão, enrolado num lençol demasiado caro para alguém que come cereais ao jantar. Sempre ouvi dizer que era um clássico. "O filme romântico para os intelectuais", diziam. "Um retrato honesto do amor moderno." E foi. Mas também foi... longo. Não em duração, em cenas. Em diálogos. Em olhares que pediam edição. Não me interpretem mal. Annie Hall tem charme. Diane Keatos en... » Continue Reading
Há dias em que acordo e me sinto leve. Capaz. Bonito, até. E depois há outros em que só me vejo através dos olhos de quem não me escolheu. Como se o reflexo estivesse contaminado por todas as vezes que fui quase, que fui talvez, que fui "amo-te, mas..." Não sei quando é que comecei a achar que amar-me devia ser um trabalho hercúleo. Talvez tenha sido naquela vez em que ele disse que eu complicava ... » Continue Reading
Houve uma altura em que achei que o amor era sinónimo de salvação. Que bastava amar alguém o suficiente para o resgatar das suas sombras. Que se nos déssemos por inteiro, tempo, paciência, desculpas, podíamos ser a mão estendida num mar onde o outro já se estava a afogar sozinho há muito tempo. Mas a verdade é que há pessoas que não querem ser salvas. Ou não sabem como. Ou talvez confundam salvaçã... » Continue Reading
Numa época em que um "visto às 14h03" tem mais peso emocional que uma carta de despedida, dei por mim a pensar: será que o ghosting se tornou no novo adeus? Aquele silêncio digital, gélido e absoluto, parece ter substituído o clássico "não és tu, sou eu" com uma eficiência brutal - e, sejamos sinceros, sem dar hipótese à réplica. Era uma quarta-feira como qualquer outra. Estava sentado no Starbuck... » Continue Reading
Numa noite de sábado, sentei-me com uma amiga num daqueles restaurantes estrangeiros que cheiram a carne frita, molho picante e arrependimentos. Falava-me de alguém - "Ele está confuso", disse ela. "Precisa de tempo. De espaço. Mas eu sei que ele ainda gosta de mim." Pedi uma cerveja. Sorri com pena. Porque eu também já estive ali. A acreditar que com o gesto certo, a frase certa, o timing perfeit... » Continue Reading
Naquela madrugada no aeroporto, eu sabia que ela ia mesmo embora. Não só por uns dias. Não só para Brasília. Ia-se embora de mim, e do que éramos. E o mais estranho? Eu deixei. Abracei-a, disse até amanhã, a brincar, e sorri... como se não me estivesse a desfazer por dentro. No caminho de regresso, com os tuneis a passar pelas janelas do metro, a chorar como se algo de mal tivesse acontecido, não ... » Continue Reading
Há encontros que começam como se já estivéssemos a meio do segundo ato. Tudo parece encaixar - o timing, os risos, os toques quase acidentais. A química está lá, o guião decorado. E mesmo assim, não dá em nada. Foi depois de mais um desses encontros promissores que se transformam em silêncio digital que eu me sentei na cama, queimado do sol e desiludido, e não pude deixar de me perguntar: estaremo... » Continue Reading
Há dias em que acho que os relacionamentos não acabam no fim - acabam logo no início. No exato momento em que alguém diz "não estou à procura de nada sério, mas vamos ver no que dá". No instante em que aceitamos metade, convencidos de que um dia virá o resto. É estranho pensar nisto assim, mas quantas vezes ficamos à espera de algo que, no fundo, já sabemos que não vai chegar? Quantas vezes disfar... » Continue Reading
Diz-se que perdoar é libertar o outro. Mas às vezes, acho que perdoar é libertar-nos a nós - ou pelo menos tentar. O problema é que ninguém nos ensina como se faz quando a memória insiste em repetir tudo o que devia ficar calado. Podemos dizer que já passou, podemos sorrir, podemos até fingir que ficou tudo bem. Mas há noites em que a lembrança volta sem ser convidada: uma palavra mal dita, um toq... » Continue Reading