Há encontros que começam como se já estivéssemos a meio do segundo ato. Tudo parece encaixar - o timing, os risos, os toques quase acidentais. A química está lá, o guião decorado. E mesmo assim, não dá em nada.
Foi depois de mais um desses encontros promissores que se transformam em silêncio digital que eu me sentei na cama, queimado do sol e desiludido, e não pude deixar de me perguntar: estaremos só a ensaiar para um amor nunca chega?
Porque começa tudo tão bem. Trocamos confidências como se estivéssemos a montar uma vida a dois. Fazemos planos sem nos comprometermos. Dizemos coisas bonitas com um pé já na porta. E depois... desaparecemos. Ou pior, somos deixados a falar sozinhos no palco.
Ninguém nos explica porque é que deixou de haver o que conversar, nem por que raios o brilho nos olhos dele se apagou a meio da conversa. Mas a verdade? Já nem esperamos explicação. Só encolhemos os ombros, respeitamos quem nos diz para não levantar muito as espectativas, e ensaiamos o papel para o próximo.
Talvez o amor tenha deixado de ser um destino e passado a ser só um cenário bonito onde figimos viver qualquer coisa que se pareca com intimidade. Talvez ninguém queira mesmo amar - só parecer que ama, durante uns dias.
E então, é aquilo que eu digo, vivemos de começos. Começos intensos, curtos, quase sempre promissores. Que nos deixam só... e com uma ligeira vergonha por termos acreditado outra vez.
Mas há um cansaso que se começa a instalar. Uma exaustão de decorar falas que nunca chegam ao fim. Uma tristeza mansa, pesada, terrível, de nunca vermos a peça estrear.
Porque chega a uma altura em que o coração não quer mais ensaios. Quer estreia. Quer palco inteiro. Quer alguém que saiba ficar quando as luzes baixam.
E até lá... vamos fingindo que não nos importamos. Eu pelo menos sim. Mas lá no fundo, continuamos a vestir-nos para a cena. Na esperança de que, desta vez, alguém entre connosco - e não desapareça no intervalo.
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