Podemos salvar alguém que não pode ser salvo?

Houve uma altura em que achei que o amor era sinónimo de salvação. Que bastava amar alguém o suficiente para o resgatar das suas sombras. Que se nos déssemos por inteiro, tempo, paciência, desculpas, podíamos ser a mão estendida num mar onde o outro já se estava a afogar sozinho há muito tempo.

Mas a verdade é que há pessoas que não querem ser salvas. Ou não sabem como. Ou talvez confundam salvação com controlo, presença com prisão, amor com dívida.


E então? Ficamos? Lutamos? Tornamo-nos mártires emocionais à espera que um milagre venha validar o nosso esforço? Ou aprendemos, a duras cargas, que salvar alguém que não se quer salvar é o bilhete de ida para o naufrágio conjunto?

Talvez seja o outro que não merece o nosso amor. Que somos demais, bons demais, pacientes demais. Com o tempo, sentimos as primeiras ondas da exaustão a bater na nossa pele, rígidas como a maré da Praia das Maçãs. Ele não precisava de mim, precisava de ajuda. Mas a ajuda parecia-lhe uma ameaça. E o amor... uma cobrança.


Comecei a perguntar-me se o problema era meu. Estaria eu a exigir demais? A querer reciprocidade onde só existia sobrevivência? Mas com o tempo aprendi: não é possível amar alguém no lugar dessa pessoa. Não é possível construir uma casa se o outro insiste em incendiar os alicerces.

Podemos estender a mão, mas não podemos obrigar ninguém a agarrá-la. Podemos amar alguém profundamente, e ainda assim, reconhecer que não somos responsáveis pela salvação dessa pessoa. Há amores bonitos que acabam. E há outros que nunca deviam ter começado, não porque não houve sentimento, mas porque faltava estrutura. Faltava vontade.


Às vezes o maior ato de amor é ir embora. Deixar alguém enfrentar-se a si mesmo. Mesmo que nos doa. Mesmo que estejamos a desistir.

E talvez a pergunta nunca tenha sido se podemos salvar alguém.

Talvez a verdadeira pergunta seja: por que raios sentimos que temos de o fazer?


0 Kudos

Comments

Displaying 0 of 0 comments ( View all | Add Comment )