Lisboa já é uma cidade minúscula quando estamos solteiros, mas quando um casal icónico do nosso grupo de amigos decide implodir, a capital encolhe subitamente para o tamanho de um guardanapo de papel. Num dia, as esplanadas do Príncipe Real e as ruas apertadas da Bica são o nosso recreio partilhado e seguro; no dia seguinte, instala-se um autêntico campo de batalha silencioso, e a cidade divide-se com o rigor tático de Berlim no auge do Muro. Artigo 2301.º do Código Civil, abre-se a sucessão, e começa-se a dividir as coisas.
De repente, a nossa vida noturna deixa de ser sobre diversão e passa a exigir uma coreografia exaustiva e mesquinha. Os grupos de WhatsApp transformam-se em complexas cimeiras diplomáticas onde se negoceiam os termos de rendição e se decreta a guarda partilhada da diversão lisboeta. A lei não escrita deste divórcio social dita que, se ele ficou com a custódia do Lux Frágil ao sábado à noite, tu serás impiedosamente exilado para festas alternativas na Margem Sul ou para aquele bar húmido na Penha de França que ninguém frequenta desde 2018.
É uma autêntica dança de espionagem, onde somos obrigados a enviar os nossos amigos como batedores para garantir que o território está limpo antes de ousarmos pedir um simples gin tónico ao balcão.
Mas a verdadeira crueldade do fim do amor neste nosso ecossistema fechado e incestuoso não é o coração partido nem a cama subitamente fria. É a constatação brutal de que, em Lisboa, perderes um namorado nunca significa apenas perderes um homem. Significa seres atirado para uma renegociação implacável do teu património social.
É perceberes, com um pânico silencioso a subir-te à garganta, que aquele último adeus à porta de casa te custou o acesso vitalício a três jantares de anos incontornáveis, duas casas de férias perfeitamente localizadas na Comporta e, no mínimo, metade das pessoas a quem ingenuamente chamavas "melhores amigos". Os amigos, qual mobília comprada a meias, acabam inevitavelmente divididos na partilha de bens.
Enquanto observava o grupo tentar, de forma patética e exaustiva, desdobrar-se em dois jantares separados na mesma sexta-feira para não ferir suscetibilidades, a hipocrisia das nossas fundações pareceu-me mais transparente do que nunca.
Já não fazemos apenas o luto da intimidade; choramos a perda do nosso passe VIP para uma dinâmica que já nos era absurdamente confortável. E, no meio deste fogo cruzado de lealdades forçadas e convites revogados, será que alguma vez choramos verdadeiramente a ausência da pessoa, ou apenas a perda irremediável do nosso lugar cativo no centro da cidade?
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Epitáfio
Essa é a parte foda de estar em um grupo, eu tava pensando sobre isso agora pouco antes de achar seu blog, você manda muito bem