Recentemente, a meio do dia, o céu sobre Portugal escureceu. O sol foi engolido pela lua e, por breves instantes, toda a cidade parou para colocar os óculos de cartão e olhar para cima. O eclipse solar total atirou-nos para uma escuridão fora de horas, um crepúsculo repentino que silenciou o trânsito e o caos habitual das nossas ruas. Mas, enquanto observava a cidade mergulhar naquela penumbra fria, com o copo na mão e os olhos postos no céu, não pude deixar de pensar: Terá Lisboa tido um Eclipse Total do Coração?
Sejamos honestos, a escuridão romântica desta cidade já se instalou muito antes de a lua ter decidido intrometer-se à frente do sol. Lisboa tornou-se um deserto de afetos disfarçado de paraíso turístico. O romance, outrora o grande protagonista das nossas noites de copos pelas ruelas estreitas, foi substituído pela apatia e pela conveniência. O Cupido fugiu à cooperativa. (Obrigado, Bruxelas.)
Às vezes, quando analiso a frieza com que navegamos pelas aplicações de encontros, colecionando rejeições e silêncios como se fossem selos, sinto uma pontada de remorso coletivo. Nascer em Lisboa tornou-me, definitivamente, em alguém pior. Ensinou-me a estar sempre à espera da próxima desilusão antes sequer de a sobremesa chegar à mesa.
Já não há espaço para a ingenuidade desmedida. É assim que eles andam, os Lisboetas: de ossos partidos e sarados de forma levemente torta, entrelaçados uns com os outros. Carregamos as nossas antigas fraturas emocionais para dentro de novas camas, na esperança de que alguém não repare que estamos montados com fita-cola. Houve uma época, num passado que agora me parece pertencer a outra vida, em que cheguei a pensar que talvez poderia gostar tanto de alguém, que isso o arruinaria, e a mim também. Uma paixão tão avassaladora que nos destruiria de forma bela. Mas, hoje? Hoje, a simples ideia de ser arruinado por amor parece exigir uma energia que já ninguém tem.
A verdade é que os Lisboetas passaram a focar-se em tudo o que não deviam. Gostam de beber, são preguiçosos, não têm um Deus, uma política, uma ideia, um ideal. Adotaram uma espécie de um 'não-estado', o qual aceitaram com a maior das naturalidades. Entrámos numa dormência coletiva, navegando de fim de semana em fim de semana sem grande convicção. Não fazem pessoas interessantes. Não que o queiram ser, convenhamos, porque isso é difícil demais e obriga a um esforço que não cabe na nossa agenda.
No fundo, já ninguém quer viver um grande romance de cinema ou uma paixão que mude o rumo da História. Despimos o amor da sua glória para o transformar numa mera transação imobiliária e logística. Aquilo que o médio Lisboeta quer, na verdade, é um T2, perto do centro, calmo, e que lhe deixem em paz.
O eclipse passou. O sol voltou a iluminar as fachadas descascadas dos nossos prédios antigos e a cidade retomou a sua marcha barulhenta. Mas, enquanto atirava os óculos de cartão para o lixo, percebi que a verdadeira sombra de Lisboa não vem do céu. Vem de nós. E para essa escuridão, infelizmente, ainda não há previsão de quando a luz voltará a aparecer.
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