Há manhãs em que acordamos nos nossos vinte-e-poucos anos, o sol entra pela janela do nosso apartamento nos suburbios de Lisboa, e o silêncio do espaço que é só nosso parece o abraço mais acolhedor do mundo. E há outras noites em que esse mesmo silêncio é tão ensurdecedor que damos por nós a olhar para o teto, a questionar se o nosso destino final será sermos encontrados de pijama, três semanas depois de termos partido, rodeados de embalagens de takeaway.
É melhor estar solteiro ou morto? A pergunta pode parecer demasiado dramática, digna de uma novela das oito, mas numa cidade onde os casais parecem nascer dos buracos da calçada portuguesa assim que a temperatura sobe, a solidão não acompanhada ganha, por vezes, contornos de uma verdadeira tragédia grega.
A verdade é que sobreviver à nossa própria juventude já é uma maratona de obstáculos. Quando a estabilidade nos é subitamente retirada debaixo dos pés, como o choque de um despedimento coletivo que varre o escritório e nos deixa à deriva de um dia para o outro em pleno verão, a perspetiva sobre o amor altera-se drasticamente. Nessas alturas de autêntico pânico existencial, não ter um parceiro deixa de ser um vazio para passar a ser uma autêntica bênção logística.
Não termos de traduzir a nossa ansiedade em miúdos para que outra pessoa a valide, nem termos de gerir as expectativas e emoções de terceiros enquanto tentamos colar os nossos próprios cacos profissionais, é o verdadeiro luxo moderno. Às vezes, o facto de estarmos sozinhos é a única coisa que nos impede de colapsar por completo, permitindo-nos focar apenas na nossa própria sobrevivência.
Ainda assim, quando a poeira assenta, continuamos a submeter-nos à roda-viva dos encontros como se o amor fosse uma simulação exaustiva num tribunal académico. Preparamos os nossos melhores tiros, vestimo-nos bem, fazemos uma audição cruzada enquanto bebemos um copão e... um dois três saltem! Abre-se a época de caça no bairro alto.
Mas valerá o nosso desgaste mental? A sociedade faz-nos acreditar que a ausência de um '+1' nos convites é uma sentença pesada, quando na realidade pode muito bem ser a nossa maior carta de alforria. Porque é que insistimos em olhar para a nossa própria companhia como uma mera sala de espera e não como um destino válido?
Eu não acho que estar solteiro seja um estado de latência. É mais possuir o controlo remoto da própria narrativa. É poder reescrever o rumo da vida sem pedir autorização a um conselho de administração doméstico. É ocupar o meio da cama, é não ter de partilhar as frustrações da semana se só quisermos ver uma série num silêncio sepulcral.
Portanto, entre o luto diário de uma relação forçada apenas para cumprir calendário e a paz inestimável de uma solidão bem curada... a resposta é fácil. Não estamos mortos por estarmos solteiros. Pelo contrário, livres da necessidade constante de aprovação alheia, talvez nunca tenhamos estado tão vivos.
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