Em Lisboa, fomos todos treinados com rigor militar para sobreviver ao apocalipse romântico. Sabemos perfeitamente como lidar com o ghosting de um encontro de sexta-feira, com a economia de afetos dos "namorados low cost" ou com o fim de um quase-namoro. Temos o guião memorizado: bebemos vinho, apagamos o número e fingimos que nunca nos importámos. Mas existe um tipo de abandono para o qual não há terapia, nem litros de espumante que nos preparem: o momento em que um amigo próximo decide, repentina e silenciosamente, cortar relações connosco sem a menor justificação.
Quando um amigo nos corta a palavra repentinamente e sem justificação, o nosso cérebro entra num curto-circuito analítico: "What gives?" A resposta teórica é dolorosamente simples. Acontece porque, na economia afetiva atual, a utilidade marginal da nossa presença chegou a zero. A mágoa profunda de percebermos que as pessoas por quem nos esforçamos não fazem o mesmo por nós nasce de uma falha de contrato. Nós investimos capital emocional (tempo, vulnerabilidade, energia) à espera de dividendos (lealdade, reciprocidade), mas descobrimos que o outro lado declarou falência sem sequer nos enviar um memorando.
Isto leva-nos à grande questão quantitativa das relações modernas: o quão alto temos de ir para sermos considerados amigos, e o quão baixo para não o sermos? Esta flutuação da nossa cotação prova que o afeto se tornou condicional e utilitário. Exige-se de nós que estejamos permanentemente no limiar da alta performance. Se nos tornarmos um "ativo" tóxico, se exigirmos demasiada manutenção ou se simplesmente deixarmos de servir o ego da outra pessoa, a subscrição é cancelada. Deixamos de ser pessoas e passamos a ser comodidades descartáveis no ecossistema urbano.
E a forma como o corte é executado revela a verdadeira dinâmica de poder da nossa geração. Entre a guerra aberta e a guerra fria, a escolha dita o nível de humanidade que o outro nos atribui.
A guerra aberta, a discussão, o grito, a rutura verbalizada, é caótica, mas é profundamente validante. Exige um investimento calórico, exige vulnerabilidade e, acima de tudo, exige que o outro nos reconheça como um igual, alguém que ainda é digno de uma explicação e de um confronto. A guerra fria, por sua vez, é o ghosting institucionalizado. É a guilhotina silenciosa. É uma estratégia de supremacia narcísica, impulsionada pela nossa epidemia de hiperindependência e pela "Síndrome do eu desenrasco-me".
Ao escolher o silêncio, o outro priva-nos do direito de defesa e do luxo do encerramento. Ele retira-se do campo de batalha não por superioridade moral, mas por um absoluto terror da responsabilidade afetiva. A guerra fria é o triunfo do cobarde; é a forma higiénica que a nossa geração encontrou de amputar pessoas sem ter de lidar com o sangue. O silêncio deles não é uma ausência de mensagem; é a mensagem mais clara de todas: o teu valor de mercado acabou.
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