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Category: Life

A Tirania do "Deveria"

Numa sexta-feira perfeitamente banal, enquanto descia o Chiado e me desviava de uma legião de pessoas de rosto tenso a correrem para reuniões que poderiam ter sido apenas um e-mail, a olhar para as montras descaracterizadas que engoliram as velhas livrarias, não pude deixar de me perguntar: Estaremos nós tão obcecados com aquilo que "devemos" fazer, tão aterrorizados pela falha e tão submissos às métricas do realismo puro, que acabamos por assassinar a alma desta cidade e, por consequência, a nossa própria vontade de viver?


Vivemos na era da ansiedade pragmática, onde a imaginação foi rebaixada a um hobby não rentável. Passamos os nossos dias a conjugar oo verbo "dever" até à náusea, num exercício de masoquismo urbano a que se chama "devi-ar alguma coisa". As nossas mentes são tribunais implacáveis onde nos auto-julgamos vinte e quatro horas por dia: Eu deveria aceitar aquele estágio corporatico que odeio porque paga o dobro. Eu deveria parar de tentar projetos criativos e focar-mee no meu perfil de LinkedIn. Eu deveria ser realista, baixar as espectativas e aceitar que o entusiasmo crónico é uma doença infantil.  Ao tentarmo-nos proteger da desilusão futura através de um banho de realidade diário, tornámo-nos uma geração de contabilistas existencias. Medimos milimetricamente o Retorno Sobre o Investimento de cada paixão, de cada decisão e de cada risco. E, nesse processo de cirurgia preventiva, acabámos por extirpar tudo o que nos fazia sentir vivos.

A cidade de Lisboa foi a primeira e mais óbvia vítima desta pandemia de "bom senso". Historicamente, esta era a capital de poetas em ruína, de melancolia indomável e de uma decadência gloriosa. Havia espaço para o erro, para a boémia irracional, para o caos sublime de viver à margem das tabelas de excel. Mas então o "realismo" bateu À porta, mascarado de recuperação económica. A cidade limou as suas arestas, construiu a Expo' 98, entrou na Comunidade Económica Europeia e fechou-se em copas. Lisboa higienizou-se, pessoal. Só entra na 2.ª Circular quem lavou as mãos antes de pegar no carro.


O verdadeiro horror, contudo, é a forma passiva como nós espelhámos esse planeamento urbano na nossa própria psicologia. Duvidamos tanto de nós próprios em nome da sensatez que o namoro moderno em Lisboa deixou de ser uma aventura de descoberta e passou a ser uma entrevista de recursos humanos. Gentrificámos os nossos sentimentos. Demolimos os velhos bairros de paixão caótica e construímos, no lugar deles, condomínios emocionais de luxo: seguros, de linhas diretas, sem humidade... e absolutamente gelados.

As pessoas culpas as aplicações de encontros, o turismo ou a inflação pela morte do romance na capital, mas a verdade é muito mais dura. Fomos nós que o matámos. Matámo-lo de tédio. Exigimos tantas garantias de devolução antes de entregarmos o coração que qualquer homem que demonstre demasiado entusiasmo é rapidamente rotulado de desequilibrado. A vulnerabilidade passou a ser uma bandeira vermelha. A loucura partilhada passou a ser um risco não rentável.


Acabamos relacionamentos, ou nem os começamos porque é o que "deve" ser feito. Fazemos a escolha realista. Mas enquanto caminhava por uma Lisboa perfeitamente limpa, perfeitamente segura e sem uma única aresta por limar, percebi a verdadeira tragédia da nossa geração. Sobrevivemos ao drama, sim, mas a que custo? Ao abolirmos o risco, o erro e o amor imprudente das nossas vidas, ganhámos a estabilidade que tanto queriamos... apenas para descobrirmos que passámos a habitar a cidade mais bonita do mundo, perfeitamente intocados e perfeitamente vazios.


Ninguém nos conhece, não conhecemos ninguém. E não nos conhecemos a nós.


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