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Category: Life

A Vida é Injusta

Numa sexta-feira quente mas tranquila, ouvi dizer de uma pessoa querida destilar veneno sobre a minha suposta "depressão e estranheza" perante uma mesa de pessoas que mal me conheciam. Ela transformou a minha recusa em alinhar nos seus habituais esquemas de poder e intriga familiares numa narrativa épica, onde eu era o tirano insensível e ela a mártir injustiçada. Enquanto ouvia aquela reescrita histórica, com a serenidade paralisante que só três copos de vinho barato conseguem dar, não pude deixar de me perguntar: Qual é a verdadeira utilidade de termos a clarividência para entender as falhas e os vícios de toda a gente na perfeição, se estamos condenados a viver numa sociedade de analfabetos emocionais que preferem agarrar-se a uma mentira confortável do que fazer o mínimo esforço para nos entender?


A grande e silenciosa tragédia de quem tem o dom (ou a maldição) da intuição aguda é que nos tornamos os biógrafos não autorizados das fraquezas alheias. Nós olhamos para a sala e vemos as engrenagens a rodar. Descodificamos instantaneamente que a agressividade do líder parlamentar é apenas pânico de incompetência; que o cinismo do ativista é uma máscara para a sua própria frustração; que a necessidade de atenção do socialite de turno nasce de um poço sem fundo de abandono. Nós traduzimos os defeitos do mundo e, num ato de suprema generosidade silenciosa, perdoamos a maldade alheia. Damos-lhes o benefício da dúvida. Mas a vida prova ser cosmicamente injusta porque essa cortesia nunca, em momento algum, nos é devolvida.

Quando chega a hora de sermos nós os alvos da análise social, a sociedade revela uma preguiça intelectual assustadora. As pessoas não suportam a nuance. Precisam desesperadamente de categorias a preto e branco para que os seus próprios comportamentos questionáveis passem despercebidos. Se tu ousas colocar um limite saudável, se decides afastar-te de amizades tóxicas, ou se recusas participar no desporto nacional que é a fofoca e a destruição de reputações, não és elogiado pela tua integridade. És imediatamente fuzilado na praça pública e arquivado na gaveta dos "complicados", "mal-educados" ou "difíceis de lidar".


A verdade mais amarga que este ecossistema nos obriga a engolir é que as pessoas interpretam as tuas ações de forma errada, não por burrice estrutural, mas por instinto de sobrevivência. Entender a tua razão, perceber os teus motivos e validar a tua posição exigiria um exercício aterrorizante: obrigá-los-ia a olhar para um espelho e a reconhecer a própria mediocridade, a sua deslealdade ou a sua cota-parte de culpa. É infinitamente mais higiénico para o ego alheio transformar-te num monstro de conveniência. A tua caricatura vilanesca serve como um colete de salvação para a consciência deles. Preferem odiar uma versão fictícia de ti do que terem de lidar com o facto de que tu foste apenas a pessoa que deixou de tolerar as falhas deles.

De nada adianta, no fundo, entendermos os outros e entendermos as falhas e vícios que eles têm. Porque quando menos estamos à espera, quem mais deseja ver-nos derrotados, salta-nos em cima, e projeta as suas falhas e vícios em nós. É apenas uma questão de tempo. Sou eu o ingénuo por achar que sempre fosse ter quem me apoiasse na minha vida, o que, infelizmente, não é a realidade. Mas isso não é algo propriamente mau. A coisa mais importante de que precisamos para podermos fazer a nossa vida é de revirar os olhos às mentiras que dizem sobre nós, continuar em frente, provar o contrário, e apoiarmo-nos a nós mesmos, porque só nós sabemos quem somos e qual é a nossa verdade.


Há um isolamento profundo, uma tristeza imensa, uma solidão e depressão em ser a única pessoa na sala a falar a língua da verdade rodeado de gente que ainda não chegou a esse nível. Podes passar décadas a observar, a compreender e a perdoar os vícios patéticos e nojentos de quem te rodeia, mas no final do dia, a empatia é um espelho de uma só via. Tu consegues ver a alma deles através do vidro, mas quando eles olham para ti, tudo o que conseguem ver é o reflexo feio das próprias inseguranças.


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