Na passada quinta-feira, enquanto bebia um copo de vinho natural excessivamente caro num terraço em Santos, observei um dos mais ferverosos ativistas anti-capitalistas da nossa praça a deslizar a mão pelas costas de um conhecido gestor de fundos de investimento. Vendo aquela perfeita coligação de interesses, onde a t-shirt de algodão orgânico com palavras de ordem roçava suavemente no linho de alfaiataria italiana, não pude deixar de me perguntar: Terá a consciência de classe morrido de velhice, ou será que a nossa inabalável pureza ideológica evapora no exato momento em que alguém nos acena com as chaves de um T3 na Avenida da Liberdade e um fim de semana pago em Troia?
Ver os bastidores da política lisboeta ensina-nos muito cedo que o ser humano tem uma capacidade infinita para a dissônancia cognitiva, mas nada supera o contorcionismo moral da vida amorosa da esquerda urbana. Durante o dia, estes rapazes são os algozes do grande capital. Marcham no Marquês de Pombal, discursam apaixonadamente contra a gentrificação, denunciam a especulação imobiliária no Twitter e tratam a palavra "lucro" como um insulto pessoal. Exigem um Estado forte, a taxação das grandes fortunas e o fim dos privilégios herdados.
No entanto, quando a noite cai e as apps de encontro se abrem, as regras do jogo mudam drasticamente. Quando se trata de selecionar quem lhes vai aquecer a cama de lençóis de algodão egípcio, o ativista moderno atira o manifesto comunista pela janela e abraça o mercado livre na sua forma mais selvagem e monopolista. Aquilo que um comunista mais deseja, é a mão invísivel - bem perto de sí...
Claro que, para um mestre do spin político, esta transação nunca é admitida de forma tão crua. O ativista encontra sempre um verniz intelectual para justificar a sua hipocrisia. Vendem aos amigos a ideia de que o namorado liberal é um "projeto de reeducação", ou justificam o usufruto da linha de carros de luxo da sogra como uma forma subtil de redistribuição de riqueza. "Estou a combater o sistema por dentro", dizem eles, enquanto dão um gole num Martini pago com dividendos da bolsa de valores.
Trata-se de um escambo moral perfeito. O capitalista sente um alívio da sua própria culpa burguesa ao dormir com o revolucionário; ao namorar com o ativista da esquerda, o banqueiro compra um certificado de "bom rapaz" e o rótulo de progressista.
Em contrapartida, o revolucionário consome avidamente o estatuto, a segurança e a conta bancária do inimigo. Há um fetiche inegável em dominar, na intimidade, o homem que oprime a tua classe social na praça pública.
No final das contas, quando as bandeiras são enroladas, megafones desligados e as portas do quarto duplo do hotel de cinco estrelas se trancam, não há blocos partidários nem barricadas. Debaixo dos lençóis, a ideologia é apenas mais uma peça de roupa que tiramos e deixamos no chão. E, na política do desejo, a nossa geração vota sempre à direita.
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