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Category: Life

A Síndrome do "Eu Desenrasco-me"

Estava sentado no chão do quarto, rodeado por parafusos e prateleiras de aglomerado de madeira, a tentar montar um móvel sozinho enquanto me recusava, com uma teimosia doentia, a pedir ajuda a quem quer que seja. O meu orgulho em ser um adulto autossuficiente tinha-se tornado a minha própria prisão solitária.

E não pude deixar de me perguntar: Estaremos nós a confundir a verdadeira emancipação com o pânico absoluto de dependermos de alguém? Qual é o preço invisível que pagamos por nos orgulharmos de ser a geração do "eu desenrasco-me sozinho"?


A hiperindependência é a epidemia mais silenciosa e glamourizada da nossa faixa etária. Caminhamos pelas colinas de Lisboa a carregar mochilas com livros e laptops que nos cortam a circulação dos braços, arrastamos malas pelas escadas estreitas de prédios sem elevador e marcamos exames médicos com a frieza de um assistente executivo. Celebramos cada uma destas pequenas vitórias solitárias como se fossem medalhas de mérito civil. Convencemo-nos de que não precisar de ninguém é o pináculo da maturidade, a prova irrefutável de que, finalmente, vencemos no jogo implacável de "nos fazermos à vida".

Mas a verdade, crua e desconfortável, é que este excesso de autonomia não nasce da força; nasce do terror. Nós fomos condicionados a acreditar que pedir ajuda é um fardo imperdoável. Num ecossistema urbano onde as relações são descartáveis, as mensagens ficam por ler e os compromissos são desmarcados com a facilidade de um deslizar de ecrã, depender de outra pessoa tornou-se um risco emocional demasiado alto. Se eu não pedir a ninguém para me segurar a outra ponta da prateleira, ninguém me pode desiludir ao largá-la. A nossa autossuficiência é apenas um escudo tático contra a rejeição.


O colapso, no entanto, nunca acontece nos grandes dramas. A nossa armadura aguenta fins de relação e crises financeiras, mas cede perante a banalidade do quotidiano. Foi ali, com uma chave sextavada na mão e uma farpa espetada no polegar, que a exaustão me atingiu. A humilhação das lágrimas que me escorreram pelo rosto não tinha nada a ver com a complexidade do manual de instruções sueco. Eu estava a ressentido porque, ao blindar a minha vida contra a desilusão, eu tinha construído uma fortaleza tão inexpugnável que me tinha deixado absolutamente sozinho do lado de dentro.


Nós aplaudimos o "desenrascanço" como se fosse um traço de personalidade heroico, ignorando a fatura brutal que a solidão nos cobra ao final do dia. Convencemo-nos de que pedir ajuda é uma admissão de falência da nossa recém-adquirida idade adulta.

Levantei-me do chão frio, limpei a cara à manga da camisola e encostei as tábuas de madeira à parede. O móvel podia perfeitamente esperar. A verdadeira emancipação da idade adulta, apercebi-me enquanto olhava para o quarto a meio da mudança hiper feng-shui, não é conseguir suportar o peso do mundo inteiro sobre os nossos próprios ombros. É ter a coragem, infinitamente mais assustadora e vulnerável, de baixar as defesas, pegar no telemóvel e admitir que simplesmente não conseguimos fazer isto sozinhos.


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