Enquanto analisava o preço de um copo noodles e uma lata de refrigerante no supermercado ao lado de casa, sofri uma colisão frontal com a minha própria banalidade. Aos dezoito anos, eu tinha a arrogância de achar que estava destinado a ser um prodígio, uma exceção à regra.
E não pude deixar de me perguntar: Qual é o exato momento em que fazemos o luto por todas as coisas extraordinárias que jurámos que íamos ser? Será a entrada na idade adulta apenas o processo doloroso e humilhante de aceitarmos que somos espetacularmente normais?
Crescemos embriagados com a narrativa do protagonismo. Fomos a geração alimentada a colheradas com a ideia de que éramos intrinsecamente especiais, de que o mundo era uma tela em branco à espera da nossa genialidade inata. Nas nossas cabeças febris de adolescentes, os vinte-e-poucos anos seriam vividos em apartamentos de teto alto a escrever obras-primas, a fechar negócios milionários ou a liderar revoluções culturais. Éramos alérgicos à mediocridade. Prometemos a nós mesmos, com aquela convicção trágica de quem ainda não tem contas em próprio nome, que nunca seríamos o tipo de pessoa que perde dez minutos da sua vida a comparar tostões na secção das massas após um dia de trabalho exaustivo.
E, no entanto, ali estava eu. Sob a luz crua e inclemente do corredor três, com um cesto de plástico vermelho na mão, a viver a vida que eu jurara secretamente desprezar.
O luto pelo "eu" imaginário é, de longe, a transição mais solitária da nossa década. Ninguém nos envia flores quando o nosso ego sofre morte cerebral. Ninguém nos dá os pêsames quando percebemos que não vamos ser os CEOs mais jovens da Europa, que não somos a voz da nossa geração e que, muito provavelmente, o nosso nome não vai constar em nenhum livro de História. A sociedade exige simplesmente que engulamos a desilusão e continuemos a empurrar o carrinho das compras até à caixa.
Aos poucos, o peso asfixiante da palavra "potencial", essa promessa abstrata que os nossos professores e pais nos colaram à testa, revela a sua verdadeira natureza: não era um par de asas, era uma pesadíssima âncora de expectativas inatingíveis.
Há uma humilhação profunda no ato de nos rendermos à estatística. Dói admitir que fazemos parte da esmagadora maioria que acorda, cumpre horários, paga a renda e tenta não colapsar com a fatura do supermercado. Sentimo-nos uns fracassados não porque a nossa vida seja má, mas porque nos medimos constantemente contra um guião de cinema que nunca existiu fora da nossa própria cabeça. O nosso sofrimento é autoinfligido pelo fantasma de uma versão nossa que nunca chegou sequer a nascer.
Atirei os noodles para dentro do cesto e arrastei os pés em direção às caixas de pagamento. E foi exatamente aí, algures entre o som agudo do código de barras a ser lido pelo scanner e o ato mecânico de digitar o PIN do meu cartão de crédito, que o pânico cedeu lugar a um alívio inconfessável.
Deixar morrer o génio que nunca fomos não é uma derrota; é o nosso derradeiro ato de liberdade. Ao abdicarmos da exigência exaustiva de sermos espetaculares, libertamo-nos do palco. Descobrimos que há um luxo imenso, quase subversivo e liberador, em sermos apenas pessoas perfeitamente vulgares. A verdadeira grandiosidade da idade adulta não é conquistar o mundo, mas sim ter a coragem de fazer as pazes com a nossa própria banalidade, e perceber que, afinal, uma vida normal e aborrecida é a coisa mais extraordinária que nos pode acontecer.
Comments
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M, but sleepy
Entendo, dude. Eu nunca teria imaginado que teria abandonar a faculdade. Eu acho que sempre pensei que seria arquiteto. Oh well, stou brokie, kkk. Você já pensou em ser autor? Ce bom com as as palavras ദ്ദി◝ ⩊ ◜.ᐟ
São coisas que acontecem, não é?
És livre de te subscreveres no meu blog e, passo a passo (e subscrição a subscrição) vou me tornando num autor sério, heheheheh
by Ângelo Tomás; ; Report