Estamos juntos porque queremos ou porque desistimos de procurar melhor?

Há uma altura em que os relacionamentos deixam de começar por entusiasmo e passam a começar por exaustão. Já não entramos neles com aquela convicção ingénua de quem acredita no extraordinário, mas com o pragmatismo cansado de quem só quer que resulte. E eu não pude deixar de me perguntar se, muitaz vezes, estamos juntos porque queremos mesmo aquela pessoa; ou porque desistimos de acreditar que existe algo melhor.


Porque querer alguém é ativo. Desistir é passivo. E a linha entre os dois é mais fina do que gostamos de admitir. Há relações que nascem do desejo genuíno de uma comunhão de vida, mas há outras que surgem como uma espécie de rendição suave ao cansaço emocional. Não é que não gostemos da pessoa, é só que gostar parece suficiente quando já não temos energia para procurar mais.

E, num piscar de olhos, o "não é perfeito, mas é bom" transforma-se num lema de sobrevivência. Convencemo-nos de que todas as histórias são assim, que a paixão é coisa de gente nova e ingénua, que a estabilidade é o prémio de consolação da maturidade. Dizemos que estamos a escolher com a cabeça, quando na verdade estamos apenas a evitar mais tentativas falhadas.


O problema não é baixar expectativas; é esquecer porque é que as tínhamos. Há uma diferença entre aceitar imperfeições e acomodar a ausência de vontade. Entre amar alguém como ele é e ficar porque sair daria demasiado trabalho. E eu não pude deixar de pensar quantas pessoas confundem conforto com compatibilidade, rotina com intimidade, companhia com amor.

Há relacionamentos que continuam não porque crescem, mas porque ninguém teve coragem de os questionar. Porque perguntar "é isto?" implica admitir que talvez não seja. E admitir isso abre uma porta que nem sempre queremos atravessar. Então ficamos. Ajustamo-nos. Chamamos maturidade àquilo que, no fundo, é medo de recomeçar.


Mas querer alguém não deveria de soar a resignação. Não deve ser um alívio silencioso por termos parado de procurar. Devia ser escolha consciente, repetida, mesmo quando sabemos que o mundo é largo e que existem alternativas. Porque quando estamos juntos apenas porque desistimos de procurar melhor, o amor começa a parecer um acordo de cessar-fogo, não uma vontade real.


Talvez o verdadeiro sinal de maturidade não seja ficar, mas saber porquê. Saber se estamos ali por desejo ou por desgaste. Porque há algo profundamente solitário em partilhar a vida com alguém só porque foi quem ficou quando já não tínhamos forças para continuar à procura.

E, num piscar de olhos, a pergunta começa a ecoar; incómoda, insistente, neccessária. Não para nos culpar, mas para nos acordar. Porque estar com alguém devia ser uma escolha viva, não o resultado de uma desistência bem disfarçada.


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