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Category: Life

A Chave do Encanto

I. Reconhecer o Véu d'Amada

   Em toda percepção - parafraseando o místico da renânia, a primeira coisa percebida é O Verbo Divino. Em todo ato de conhecer, de interagir e deixar-se aberto à forma que se mostra ao nosso coração, não é sua silhueta, suas cores e aromas que primeiro gravamos na mente, mas sim sua essência mais profunda e velada, isto é: o fato implícito de que aquele objeto, aquela pessoa ou situação traduz em si mesma e a seu modo pessoal, uma semelhança com o divino. Essa "ponte" que se faz, é imediata e anterior a qualquer espaço de tempo; na verdade, é anterior ao próprio ato de conhecer e memorizar da mente. É um fenômeno do coração, feito em segredo e por paixão, no âmago do espírito, sua parte mais desconhecida para nós e mais familiar a Deus.

   Tente se lembrar do último momento que teve de maravilhamento, de admiração por algo, seja pela catarse exposta por uma canção ou uma composição imagética de um quadro, de um filme. Mesmo um olhar cativado pelo olhar de outrém. Se analisar com cuidado e carinho a memória em questão perceberá que a altivez contida ali, não é algo singular, mas que se comunica por analogia a outras instâncias tão únicas quanto ela: A alegria ao ver um sorriso sincero dialoga com o perfume aromado em um jardim há muitos anos; este, por sua vez, relembra a pulsante intimidade comungada por um acorde em uma música ouvida no dia anterior. E assim caminham as sinestesias do tempo, em um emaranhado que parece nunca ter fim. Mas há nele um centro sutil que, enquanto vivemos, não os finaliza, mas os assegura: São todas elas cores de uma luz perene, faces de uma mesma dama, pétalas de uma mesma flor.

   Essa unicidade de ser de todas as intensidades é velada quanto mais deixamo-nos à mercê das quantidades e tornamo-nos cegos para a qualidade de cada criatura, de cada sentir e de cada tempo. Abdicamos da fantasia do Real em troca da concretude da Ilusão. Somos os únicos capazes de conformar-se a beber a rocha áspera à se deleitar no frescor do hidromel dos deuses. É sobre isso que Saint-Exupéry escreve ao contar-nos a desilusão do Pequeno Príncipe que, visitando pela primeira vez um jardim de rosas, desencanta-se com a única que conhecera, exclamando: "Então minha rosa é como todas as outras?". Por um determinado momento ele cede sua inocência de criança, dando lugar à monotonia de superficialidade dos adultos, que acham que "provando-se um licor, prova-se todos os outros". Por providência ele logo compreende, graças à raposa, que mesmo toda flor parecendo-se com outra, é apenas cativando-a e deixando-se cativar que pode-se, em certeza, conhecer a única flor que naquele momento existe.

   O mundo não é uma máquina, mas um jardim infinito de infinitas floras, contidas todas no desvelar de cada existir e conhecer.


II. Retornar à Aurora e fazer-se a Primavera

   Para uma criança, o verde da grama é mais verdadeiro que a própria relva. A cor a encanta, é viva, independente, e mais: A cor, por si mesma, é o que contém a graminha, não o contrário. Para a criança, um conto de fadas é mais concreto que seu pai e sua mãe. A bruxa que aprisiona João e Maria não é uma qualquer, ela é a maldade viva, a pior de todas, e sempre que ela observar um amiguinho sendo mau, dirá: "É como a Bruxa!". Do mesmo modo o Cavaleiro lhe é o peso e a medida de toda bondade, justiça e modo de ser. A criança que imagina não se comporta com medo do castigo, mas com esperança de ser o Cavaleiro, o arquétipo que, aos adultos e céticos, é mero faz-de-conta; para o inocente menino o Cavaleiro é o pilar de todo o mundo, e quer sê-lo, quer dar vida ao Cavaleiro e matar todos os Dragões, ver toda menina como Princesa e salvá-la de todo o mal. Formavam-se, assim, Fadas e Heróis nos tempos em que cada cor era um universo, cada construção um antecâmara do Paraíso; cada indivíduo era uma fantasia a ser consumada. Castrou-se a chama imperecível em tudo e todos. Resta para  nós os ratinhos formados pelo desejo de não desejar nada além do "possível". O impossível corre de nós, pois perdemos os olhos da maravilha, o tato da imaginação e o coração do que está além de toda forma.

   Tudo hoje nos é desfavorável para conservar esse tesouro íntimo da infância. Inocência, erroneamente se ensina, é sinônimo de lerdeza, de imaturidade e ingenuidade. Absolutamente tudo grita o horror e o pandemônio: Construções sem adorno, forma ou encanto; Músicas que aceleram a todo vapor o corpo e alma sem dar tempo de degustar-se a própria existência; Palavras mortas, sem deleite ou respeito por si e pelos outros; Sonhos limitados a este mundo perecível, gravitando em torno de carreiras, consumo e do alienar-se, esquecer de tudo e fugir para um lugar onde nem mesmo você exista. Isso não é digno da natureza que nos foi dada, não é digno o homem tornar-se pior que um cão. Era para os Anjos que olhávamos e caminhávamos, hoje nem sequer olhamos. Rastejamos como a lepra de uma sombra.

   Há esperança, creio. Repousa, como sempre repousou a graça de viver, no amor e no esforço de dar-se às pequenas esferas da vida. Notar e apreciar (como um certo agente) os abetos que farfalham e colorem as estradas e panormas de uma cidade do interior, e preferí-los ao hedônico "conforto" de torres infernais de uma metrópole. Degustar cada instante de um abraço, decifrar cada luz que atravessa o vidro de uma janela, compreender o falar das aves e o gorjeio do arrebol. Em tudo isso encantar, pouco a pouco, o desencanto; sonhar, de momento em momento, a realidade mais puro de tudo que há. E enfim, quando menos perceber, novamente estará dialogando com as Fadas que nunca deixaram de tecer a beleza das manhãs. Estarás, leitor, no seio da vida mais viva, e tudo que outrora pareceu tão imóvel e certo, será como a graça de um sonho infantil. Um delicioso conto-sonho.


III. "... E Náufrago a sonhar fiquei na minha vida"

"Vou a ouvir o que dizem as nebulosas

Esculturas do sonho e do irreal,

Murmúrios de outras noites misteriosas


Que séculos de azul hão-de torná-las

Em formas tenebrosas do ideal.

Qual sol tocando a pedra das Opalas!"

- E. Rosas, 1914. Trecho de "A Hora Em Segredo".


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