Em relacionamentos, quais são os deal-breakers?

Cada pessoa tem a sua lista invisível de deal-breakers. Uns assumem-na de peito aberto: "não quero alguém que não queira filhos", "não consigo namorar com quem não gosta de animais", "não suporto quem vota naquele partido". Outros guardam-na em silêncio, como se esconder a lista fosse uma forma de prolongar o prazo de validade da relação.


Uma amiga minha, por exemplo, fuma. Não é um cigarro ocasional, é um vício gigantesco, daqueles que quando se olha pela janela, vê-se as beatas e cinzas no parapeito. Mas quando começou a sair com um tipo que detesta tabaco, decidiu que não valia a pena estragar a magia com cinza e beatas. Então, escondeu. Durante poucos meses, inventava desculpas para desaparecer depois do jantar, tinha sempre pastilhas no bolso e perfume na mala. Até que ele começou a suspeitar. Confrontou-a. Perguntou diretamente se ela fumava. E ela... mentiu.

Naquele momento, percebi que um deal-breaker não é só sobre preferências. É sobre identidade. Porque o problema não foi só ela fumar. O problema foi ela sentir que precisava de apagar uma parte de si para caber no molde de alguém que, no fundo, nunca a aceitaria como é. E se precisas de viver constantemente em modo camuflado, que tipo de relaçáo é essa?


Claro que o tabaco é só um exemplo. Já vi casais implodirem por muito menos: alguém que não suporta cães apaixonar-se por alguém que tem três; um que adora sair todos os fins de semana com amigos e outro que prefere ficar em casa a ver séries; ou ainda aquele clássico que destrói medade das relações modernas - as redes sociais. Porque, sim, para algumas pessoas, gostos são problemas tão sérios quanto uma traição.

E depois há os deal-breakers invisíveis, aqueles que não se dizem em voz alta porque parecem demasiado banais ou cruéis. Como descobrir que ele é pobre. Ou que ela nunca leu um livro inteiro. Ou que um dos dois tem uma relação estranhamente íntima com a mãe. São pequenas revelações que, de repente, nos fazem sentir que estamos a viver uma história com prazo de validade.


Mas a verdade é que, no fundo, todos acabamos por negociar os nossos próprios limites. Fingimos gostar daquela banda que na realidade detestamos, tentamos ser mais "desportivos" do que realmente somos, falamos com entusiasmo sobre brunchs quandos preferíamos um café e uma tosta mista. Pequenas cedências que até fazem parte da dança. Só que, quando a coreografia passa a exigir que deixemos de ser quem somos, já não estamos a dançar... estamos a ensaiar uma personagem para uma peça que não combina connosco.


Afinal das contas, talvez não sejam os deal-breakers que destroem as relações, mas sim a nossa disposição para os ignorar. Porque podemos tapar a fissura com fita-cola durante algum tempo, mas a pressão acaba sempre com rebentar. E quando rebenta, já não é sobre cigarros, cães ou redes sociais. É sobre a descoberta amarga de que estivemos a tentar nos encaixar numa história onde nunca fomos bem-vindos de verdade.


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