O mito da pessoa certa

Passei metade da vida a ouvir falar da "pessoa certa". Está em todo o lado: nos filmes que vi quando era miúdo, nos conselhos que os amigos são depois do terceiro como, nas frases que se partilham em posts do Insta. A ideia de que existe alguém algures, no tempo e espaço, desenhado à nossa medida. Uma alma gémea, em encaixe perfeito, a resposta para todas as perguntas que nem sabíamos que tínhamos.

E durante muito tempo, acreditei. Acreditei tanto que cheguei a confundir coincidência com destino, paixão súbita com revelação divina, e química com promessa eterna. Quantas vezes não pensei: "é isto, encontrei"? E, claro, quantas vezes é que descobri que afinal... não era?


O problema do mito da pessoa certa é que transforma tudo numa caça ao tesouro sem mapa. Faz-nos entrar em situações sociais como se estivéssemos a avaliar candidatos para o papel principal da nossa vida. "Será que é ele? Será que é agora?" E cada falha, cada desilução, cada relação que não dura o suficiente acaba por ser interpretada como um desvio no caminho. Como se houvesse uma rota secreta que, se seguisse à risca, nos levasse inevitavelmente até esse "um".

Mas e se não houver caminho nenhum? E se não houver "a pessoa"?

Talvez o que haja seja um conjunto de pessoas, todas elas certas no momento em que apareceram. Aquele amor adolescente que parecia inquebrável até colidir com a realidade.  A paixão intensa que durou um verão e nunca mais se repetiu com a mesma força. A relação longa, que foi mais escola do que romance, e nos ensinou o que queremos; e, sobretudo, o que não queremos. Talvez cada uma dessas pessoas tenha sido certa, mas apenas até deixar de o ser.


O mito da pessoa certa dá-nos esperança, sim, mas também nos deixa sempre em dívida com a realidade. Como se tudo o que vivemos fosse apenas ensaio para o grande papel. Mas e se não houver estreia? E se o filme for feito de episódios soltos, de personagens que entram e saem, de histórias que não têm moral nem final fechado?

No fim, começo a achar que a pessoa certa pode até existir. Mas se existe, não é um destino fixo, nem uma certeza universal. É só alguém que, naquele momento, naquele lugar, nos faz querer ficar. E isso é suficiente, aliás, é incrível.


A vida não é uma equação romântica à espera da solução perfeita. É mais como uma série de tentativas, falhadas ou bem-sucedidas, que nos obrigam a reescrever a pergunta. E, se calhar, o mito da pessoa certa é mais que isso: é verdade. Mas uma verdade tão escondida que quase dá vontade de não acreditar, até que nos aparece a pessoa certa à frente, e amamo-la todos os dias.


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