Há um certo tipo de jantar a dois que não precisa de grande legenda. Dois copos de vinho, dois telemóveis virados ao contrário na mesa, e aquele silêncio desconfortável que só é interrompido por uma pergunta meio acusatória: "E esse comentário, não achas que foi inconveniente?"
Durante muito tempo acreditámos que o ciúme era a maior prova de amor. Que só tem ciúmes quem se importa, quem tem medo de perder. No início até sabe bem: é uma validação disfarçada. "Se ficou incomodado, é porque gosta." "Se ficou insegura, é porque me deseja." O ciúme parecia o tempero picante de qualquer relação; um excesso que nos fazia sentir vivos.
Mas, com o tempo, percebi que muitas vezes não é paixão. É tédio. Quando já não há novidade, quando a rotina ocupa todos os espaços, o ciúme aparece como último recurso. Uma faísca artificial para reacender uma chama que já não existe.
O problema é que o ciúme de tédio não é intenso, é burocrático. Não vem do medo de perder, mas da necessidade de sentir alguma coisa; nem que seja uma pequena irritação. Discutimos sobre mensagens não respondidas em dez minutos, sobre sorrisos vagos, sobre histórias de Instagram vistas fora de horas. Criamos drama porque já não sabemos criar desejo.
E no fundo, é fácil mascarar essa rotina. Dizemos que são “coisas pequenas”, que é “normal sentir ciúmes”. Mas não é normal. O ciúme que nasce do tédio não constrói, só desgasta. É como acender fósforos numa casa já sem eletricidade: ilumina por segundos, mas nunca resolve a escuridão que nos assola.
Talvez seja por isso que tantos casais confundem conflito com intensidade. Acham que discutir prova que ainda há paixão, quando na verdade só prova que não sabem como inventar novas formas de estar juntos. O ciúme torna-se passatempo, argumento reciclado, combustível de relações que já não sabem andar sozinhas.
E talvez essa seja a parte mais cruel: perceber que, em certas fases, o ciúme já não é amor, é só a rotina disfarçada de emoção. Uma tentativa desesperada de provar a nós mesmos que ainda há qualquer coisa ali, mesmo que seja apenas uma frustração falsa.
E sem mais nem menos, o ciúme deixa de ser fogo, porque quando nasce do tédio, não aquece ninguém. Só deixa cinzas no prato do jantar e mais um silêncio difícil de engolir.
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