Não sei se é azar, karma, ou simplesmente má gestão de expectativas, mas parece que há sempre alguém ou alguma coisa mais importante do que nós. Somos prioridade até certo ponto, até que aparece um namorado novo, uma pessoa mais excitante, uma viagem de última hora, um trabalho que afinal "não pode esperar". E nós? Ficamos na prateleira, a apanhar pó, naquele lugar invisível entre o indispensável e o descartável.
O mais curioso é que raramente isso é dito em voz alta. Ninguém nos olha nos olhos e diz "tu és plano B". Mas sentimos. Sentimos no atraso das respostas, nos convites que chegam tarde, nas desculpas que parecem catálogos de improviso. O mundo social de hoje tem um talento especial para nos fazer acreditar que somos importantes - até ao momento em que alguém mais interessante entra em cena.
Talvez o problema não seja só o outro, mas esta cultura de urgência em que vivemos e criámos. Tudo é instantâneo (até as massas que comemos), tudo é substituível, e as pessoas aprenderam a viver como quem passa canais de televisão: nunca se fixam demasiado, porque pode estar a dar algo melhor noutro lado. E nós, convencidos de que somos a série principal, descobrimos, a meio da temporada, que afinal somos apenas um episódio para encher.
O que dói não é apenas a substituição, é a normalidade com que ela acontece. Mas eu também já tinha falado disso. Como se fosse óbvio que, numa hierarquia invisível, estaríamos sempre abaixo de quem traz frescura, novidade ou qualquer traço que desperte entusiasmo imediato. É como se a nossa presença acumulasse desgaste enquanto a do outro brilhasse por ainda não ter sido testada.
E, no entanto, continuamos. Continuamos a atender chamadas, a marcar cafés, a estar presentes quando mais ninguém está. Porque, mesmo em segundo plano, queremos fazer parte do filme. Talvez seja isso o mais ridículo: aceitar um papel menor só para não ficar de fora do elenco.
No fim, ser reduzido a segundo plano não é uma questão de ego. É uma questão de valor. Porque uma coisa é sabermos que não podemos ser prioridade sempre (e tudo bem!); outra, muito diferente, é percebermos que nunca o fomos.
Comments
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˚𖦹 Makenzie 🦴。
Comentei com minha psicóloga a um tempo atrás sobre sempre sentir essa sensação, eu lembro de dizer que desejava que alguém corresse atrás de mim igual eu corro atrás de todos e ela simplesmente soltou um "Se você continuar esperando por alguém assim você vai morrer triste", aquilo me pegou muito, mas infelizmente é a mais pura verdade. Temos que parar de esperar e ansiar pela validação dos outros e aprender a nos valorizar