Sempre me disseram que as relações verdadeiras resistem a tudo - à distância, ao tempo, aos namoros que nunca deviam ter acontecido, às mudanças de cidade e até às versões mais vergonhosas de nós próprios. E eu quis acreditar. Quis acreditar que anos de cafés, confidências e piadas internas criavam uma espécie de contrato vitalício, uma exclusividade emocional onde não havia espaço para substituições. Mas, como acontece com quase tudo o que acreditamos sobre relações humanas, bastou um pequeno detalhe para pôr esta teoria em causa: o fator novidade.
A novidade tem um brilho próprio. Não é preciso ter mais história, mais profundidade ou mais lealdade. Basta ser nova. É como um restaurante que acabou de abrir - ninguém sabe ainda se é bom, mas toda a gente que ir. E, de repente, aquela relação sólida, construída ao longo dos anos, começa a perder espaço para algo que mal saiu da embalagem.
O processo é subtil. Primeiro, as respostas às mensagens começam a demorar mais do que o habitual. Depois, os planos passam a ser "vamos ver" em vez do "combinado". E quando finalmente conseguimos estar juntos, já não somos o interlocutor principal. Somos o convidado de honra numa festa que já não é nossa. A conversa está sempre carregada de referências a "ele" ou "ela", o novo amigo, a nova amiga, a nova obsessão social. E nós, que estivemos ali durante anos, passamos a ser... decoração.
A ironia é que sempre se fala da longevidade. Fala-se disso como se fosse um troféu na prateleira - como uma prova de obrigação. O problema é que, quando chega alguém com aquele entusiasmo fresco de primeira temporada, somos rapidamente relegados para o papel da personagem secundária. Não há stress. Há apenas um lento e constante desvio de atenção, até ao dia em que percebemos que a nossa exclusividade era pura ingenuidade.
E o que magoa não é só a troca, é a facilidade com que ela acontece. Anos de partilha e cumplicidade evaporam-se ao som de um "devias conhecer esta pessoa, vocês vão adorar-se", e nós, polidos, sorrimos, fingimos interesse, mas por dentro sabemos que acabámos de assistir à nossa própria substituíção. Pior ainda, ficamos presos naquela posição ingrata de não poder reclamar - afinal, não se reclama de uma exclusividade que ainda existe... mesmo que já não seja colocada em prática.
Talvez seja por isso que aprendi a ver as relações de longa data como livros antigos: alguns continuam a ser relidos, outros ficam só na estante para decorar a sala, lembrando-nos de que já tivemos boas histórias. Mas basta aparecer um título novo, com capa brilhante e cheiro a papel acabado de imprimir, para que toda a atenção se vire para ele. E é aí que percebemos que, no fundo, ninguém é exclusividade na vida de ninguém - podemos tentar se capítulos que, mais cedo ou mais tarde, dão lugar a outro; mas acabamos sempre por ser uma anotação na margem da página.
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