Essa semana tá difícil, e ainda é o segundo dia dela. Sinto medo o tempo todo, sabe? Sobe pelos dedos do pé e para na minha barriga. Estou com medo do futuro, não do meu, mas do Brasil. Estou com medo de tudo, de viver, de respirar errado. Parece que o mundo tá desabando e eu não consigo impedir e nem solução existe. Nenhum texto meu consegue reparar nada, e eu ainda tenho que acordar 5 da manhã para ir pra escola, mas pelo menos eu tinha B.
Tinha.
Ele deve ter te contado hoje que conseguiu um emprego. Vai ir pra noite. Ao menos isso aconteceu no fim do ano, mas ainda dói saber que irei ficar 11 dias sozinho, talvez mais. Não quero passar por isso de novo, os recreios silenciosos, as risadas da sala onde eu nunca posso me incluir. O medo de falar, principalmente. Eu esqueci como falava quando você foi embora, sabe? Você lembra dessa época? Eles falavam que eu era mudo, perguntavam quem eu era quando meu nome aparecia na chamada. Me tornei mais invisível do que já fui. Mas B apareceu, me desinterrando, colocando sentido nas coisas e despertando risos. Agora parece que tô afundando de novo, o Brasil desmontando em cima de mim e o peso ficando cada dia maior, difícil demais de respirar. Não sei se quero, sabe? Respirar. Não sei se consigo. Eu não consigo dormir, sabe? Faz um mês, eu acho, que isso começou. Não consigo dormir. Tenho medo de não conseguir mais levantar, não conseguir mais nada, nem escrever.
Onze dias ficarei sozinho, talvez até mais. Mas nada mudará para você. Irei recomeçar a fazer o que fazia antes... ver todos juntos de colegas, enquanto eu estou avusso de tudo isso, um menininho assustado. Acho que é isso que sou, que sempre fui. Alguém com medo, talvez medo demais para sequer conseguir falar ou viver. Só sei que minha mente tá pesada, mas não consigo dormir, não consigo esvaziar os pensamentos. Eles vem em ondas tão fortes que já me afoguei muitas vezes.
Chorei na minha mãe hoje, sequer sei exatamente porquê motivo estava chorando. Fui pedir colo por B, mas depois pensei em você, e então no futuro e lembrei que não existe um futuro pro Brasil. Chorei em silêncio ali na cadeira da cozinha. Me senti tão apático, tão fora do meu corpo. Fiquei ali só chorando bem quietinho tentando colocar as peças que me tornavam eu dentro do quebra cabeça, mas tem algo faltando em mim, sempre teve, desde que você se foi.
Me sinto melancólico demais, e melancólia me lembra do passado. Eu odeio o passado... odeio o não futuro que temos. Odeio-me. Quero me enterrar dentro da minha própria carapaça vazia, ficar em estado vegetativo. Só fugir disso, fugir disso tudo. Fugir da sua ida, fugir da família Bolsonaro, fugir da escola. Fugir de mim mesmo.
Me pergunto se de alguma forma sua vida tá pior, queria saber se estamos no fundo do poço juntos. Não juntos, é claro, você não está aqui, não está lendo, sequer vai notar que estou sozinho no recreio novamente. Mas mesmo assim queria saber. Isso foi um desabafo, um desabafo que eu escreveria e mandaria para você se você ainda me ouvisse. Queria tanto que ouvisse. Vejo poemas que falam de dor de esquecer alguém e choro sempre que acontece. Te vejo e desvio o olhar porquê me sinto paralisado dentro de mim próprio. Não lembro seu cheiro... não quero mais ir a escola. Não quero acordar, não quero ver você de novo sabendo que nada mudou. Queria que você brigasse comigo, dissesse alguma coisa, qualquer uma. Queria seu toque, queria que você se sentasse comigo no recreio do nada, como você fez naquele último dia que nós falamos. Sabe, eu fiquei muito feliz naquele dia. Você seguiu ele quando bateu o sinal, então defini que eu ficaria sozinho. Peguei meu livro e me sentei onde sento quando fico sozinho, apenas lendo. Depois de 10 minutos você apareceu e se sentou comigo e me perguntou porque eu não te esperei... eu quase chorei naquele momento, entende? Foi significativo demais! Você já estava com ele, mas deu tchau a ele e foi me encontrar para ficar comigo. Aquilo foi uma atitude que alegrou meu dia, e voce me ouviu falar de aftg naquele recreio. Depois nós fomos pra casa, e no dia seguinte você passou o recreio com eles. E depois em todos eles. Mas naquele dia, você me procurou na escola, provavelmente sabia onde eu me sentava quando você não estava por perto, me achou e se sentou comigo, mesmo com todos eles, você escolheu a mim naquele dia.
Eu meio que espero isso se repetir. Há uma espectativa, uma esperança que nesses 11 dias de solidão você irá aparecer surgindo do nada, vai se sentar do meu lado e me perguntar o porquê eu não esperei.
e eu vou responder que não sabia se você vinha. Mas que estou feliz que veio.
Escrever isso tá me dando vontade de vomitar... é mais fácil lembrar de todos os momentos que você me substituiu, que me deixou sozinho, que ESCOLHEU me deixar sozinho, do que lembrar os momentos que você tentou, que você ficou, que você tentou consertar. Porque você também não queria me perder, mas eu forcei uma escolha. Eu te ignorei quando você vinha até mim, acho que no fundo eu já tinha escolhido, e minha escolha não foi você.
No fim, nenhum de nós nos escolhemos... eu o faria agora. Quero saber quem é sua namorada, se é sua namorada mesmo. Quero saber o que você fará, quero saber seus medos. Quero relembrar seu cheiro e quero saber se você vai se sentar no recreio comigo droga!
Quero vomitar... me sinto vazio, mas ao mesmo tempo vazando. Como deixar o gás aberto... queria que você lesse só esse texto. Queria que você soubesse que agora eu reconheço suas tentativas de nos reaproximar, mas reconheço que nunca teria sido suficiente. Mesmo agora, se você escolhesse fazer as mesmas escolhas que fez, eu também teria escolhido fazer as mesmas que eu fiz.
Ação e consequência. Você escolheu me ter um dia sim e um dia não. Consequência: eu escolhi me ter todos os dias, mesmo que eu quisesse lhe ter todos eles.
Tudo dentro de mim dói e grita... há futuro para nós?
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