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Category: Life

10/09/26| Irmãos.

10 de setembro.

Minha garganta tá machucada. Sempre teve.


Hoje, reassisti o documentário da Elena. Não lembro exatamente quando vi o documentário a primeira vez, mas acho que foi antes da primeira tentativa do meu irmão. Lembro que na época ele já estava mal, mas aquele documentário ressoou em mim. Eu era Elena. E então eu reassisti, e de repente eu não era mais Elena, e sim a Petra. As vezes sinto saudades do meu irmão, mesmo que ele ainda esteja vivo. Não conversamos, mas eu sinto sempre que ele sente. Dói sempre que ele tenta morrer. De alguma forma nada nunca parece certo, não importa o que eu faça. É como estar em um emaranhado de fios em cima de um muro. 

Eu sempre senti demais, por tudo e todos. Até mesmo por seres inanimados. Até hoje eu arrumo o bracinho das minhas pelúcias pq sinto que eles ficarão com dor na posição errada. As vezes até mesmo os cubro. Eu sinto muito, e nunca foi sobre desculpas.

Eu sinto muito pelo afastamento de mim e meu irmão, por nunca termos voltado a ser como éramos antes. Foi a primeira perca que tive, a perca do meu próprio irmão.

Eu sinto muito pelo personagem do filme de Jurassic park que morreu no início do filme. Eu era só uma criança.

Eu sinto muito pelo que aconteceu entre mim e M, e ainda tenho pesadelos quase todos os dias com isso. A perca da minha segunda irmã.

Eu sinto muito por minha mãe, e por tudo que ela passou.

Eu sinto muito pela minha professora de sociologia, que perdeu o marido nessa semana.

Eu sinto muito por mim, que apesar dos meus esforços, não consigo ser.

Sinto muito pelo cansaço, do desprezo, das palavras mal pensadas, do terror de fechar os olhos e não conseguir dormir. Do medo de acordar e alguém ter substituído meu lugar. 

Sou composto por aftg, escrita, greys anatomy, M, melancolia e saudades.

E eu sinto muito por isso também.

Talvez eu precise de uma terapia especial.

Uma que me faça parar de sentir pelo mundo todo. Uma que me faça parar de ver todos morrendo sem que eu possa resolver os conflitos. O medo de ver meu irmão morrer e não saber quando foi a ultima vez que eu realmente conversei com ele. O medo de descobrir que M também perdeu a luta para depressão e meu luto de agora se tornar um luto real, um que me faça não ter mais esperanças de acabar. Um que me faça desmoronar novamente e nunca mais me erguer. O medo toda vez que meus pais saem de casa. 


É estranho pensar que ela não sabe do que houve com meu irmão. Estranho que ela nunca saberá. É o que eu tenho mais vontade de contar, só chegar nela e falar que meu irmão está doente. Uma doença que não se cura, uma que achávamos que nós levaria. Tenho vontade de contar e perguntar se também preciso ter medo de perde-la para depressão, ou se os novos amigos dela fizeram o que eu não consegui fazer com nenhum deles. 

É um pensamento bobo. Um sentimento mais bobo ainda. Mas eu sinto. Sinto muito, sinto pra caralho. Eu queria conforto, queria poder falar. Mas tenho um emaranhado de fios, no peito e na garganta. Eu tenho que ser o filho vivo, o filho feliz, mas eu quero ser o filho que pede ajuda, o que pode chorar no peito da mãe e ela não se preocupar automaticamente se eu posso vir a me machucar... ela nem ao menos sabe que eu superei essa fase, não sabe nem mesmo que essa fase chegou a existir. As vezes penso em contar para meu irmão sobre isso, dizer que sei como ele se sente. Dizer que em mim tudo queima, assim como queima nele. Mas como eu poderia? Fazemos partes de órbitas diferentes, e sentimentos mais diferentes ainda. Eu escuto ele conversar com minha mãe, e nisso conheço mais sobre ele. Um ele que eu nunca poderia conhecer. Parece que agora só conheço meus irmãos pelo que escuto deles, tanto ele quanto M. Suas vidas através de paredes finas que deixam o som passar. Nossos encontros desconfortáveis através de esbarrões. Tão distantes, mas o universo continua nos empurrando. Não importa se é ao querer usar o banheiro ao mesmo tempo(meu irmão) ou nos encontrando no shopping e passando reto como se nem nos conhecessemos(M) o mundo simplesmente continua nos empurrando um para perto do outro. Sinto que perco oportunidades, que perco eles cada vez mais. Penso que talvez eles sintam o mesmo, e me pego perguntando se eu não valho a pena o suficiente para que eles parem de passar reto e virem para mim nos malditos corredores e gritem meu nome! Mas eu também não gritei. Eu também passei reto. Eu também desviei o olhar. Talvez nós não somos irmãos afinal de contas. Talvez eu só sinta demais para pessoas que sentem de menos. O que importa é que eu sonhei com ela essa noite, e "Elena" não é mais sobre mim, mas sobre ele. E mesmo odiando, eu ainda espero esses momentos que o universo nos empurra na direção um do outro, apenas para eu checar, minimamente, como eles estão. Apenas para eu sentir, por apenas um momento, que eu conheci essas pessoas. 

Ontem, eu esbarrei em você, meu irmão. Eu me escondi e esperei você sair do caminho. Como se fosse um desconhecido, como se não tivéssemos o mesmo sangue.

Ontem, você apareceu no meu fy, M. E ver as fotos do seu ano quebrou algo dentro de mim, ou talvez eu tenha tido a impressão de ter quebrado. Porque aqui dentro voce já destruiu tudo, que não sinto que exista mais algo para ser destroçado. 


Acho que eu não funciono para isso. Para relacionamento de irmãos. Talvez seja por isso que tanto o irmão que a vida me deu, quanto a irmã que eu escolhi para mim, não estejam mais comigo. Há algo quebrado em mim, tão defeituoso que nem mesmo algo como irmãos possa suportar lidar.


Sabe... hoje é dia 10 de setembro de 2026. E eu meio que sinto muita falta dos meus irmãos.


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