Se tivesses me dito
que um pássaro gigante
me trouxe enrolado em uma fralda,
com meu nome bordado,
e em teu colo me deixou,
eu teria acreditado.
Pois de teu ventre não pareço ter saído.
De que valeu em teu seio ter me alimentado,
se, quando eu caía no choro,
não era para teu colo que eu corria?
O valor nunca foi construído.
Quando procurei teu carinho,
pelos corredores tu havias fugido,
como alguém que não queria lidar com o fardo
que ela mesma escolheu carregar.
Por nove meses,
que agora são dezessete, quase dezoito anos.
Como de teu sangue posso ser,
se, quando os lobos feriram o cordeiro,
tu defendeste aqueles que o machucaram?
Defendeste aqueles de dentes afiados e olhos famintos,
deixando ali teu cordeiro,
sangue de teu sangue,
sangrando aos prantos,
procurando teu colo, teu abraço, teu afeto,
que nunca estiveram lá.
Laços sanguíneos são inúteis, pois aqueles sangue de teu sangue, só tenho meu ódio para oferecer.
Mas não odeio você, nem que eu tente.
Também nada posso te oferecer,
a não ser frases prontas da internet
para tentar dizer que a dor de teu parto
valeu de algo.
Laços de sangue não valem nada.
Pelo menos não os que eu tentei,
e falhei miseravelmente em formar com você.
Apesar de tudo, eu te amo.
Mesmo que, às vezes, você seja apenas um borrão
nos quadros da infância.
Ou gritos na cozinha,
abafados por músicas altas.
Ou a voz da minha mente,
que me critica e me deixa em pedaços.
Mesmo que, às vezes, você pareça uma desconhecida,
uma lenda urbana que contei
para tentar tapar o buraco que foi deixado.
Você está quase ao meu lado,
mas ainda está ausente.
Laços sanguíneos não valem nada
se forem feitos apenas de sangue.
Mas eu te amo, eu juro que amo.
Ainda tento te amar,
porque, no fundo do meu peito amargo e vazio,
eu não quero te odiar.
Apesar de tudo,
você genuinamente tentou.
Comments
Displaying 0 of 0 comments ( View all | Add Comment )