Compartilhando uma boa crônica :)

Do livro: Comédias da vida privada - Luis Fernando verissimo (1994)

Título: O verdadeiro José

OBS: Começa triste mas termina estranhamente...Engraçado. Tristemente engraçado. Perdoe-me qualquer erro de escrita!

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 José morreu, com justeza poética, num avião da ponte aérea, a meio caminho entre São Paulo e Rio. Coração. Morreu de terno cinza e gravata escura, segurando a mesma pasta preta com que desembarcara no Santos Dumont todas as segundas-feiras, durante anos. Só que desta vez a pasta preta desembarcou sobre o seu peito, na maca, como uma lápide provisória.

 - O velho paulista... - disseram seus colegas de trabalho, no velório, lamentando a perda do companheiro tão sério, tão eficiente, tão trabalhador. Seu apelido no Rio era Paulista.

 A mulher e o filho de 18 anos mantiveram uma linha de sóbria resignação durante todo o velório. Aquele era o estilo de José. Nada de arroubos ou demonstrações de sentimento. Sobriedade. Foi idéia do filho que o enterrassem de colete.

 - A verdade - cochichou um dos sócios de José na empresa - é que ele nunca se adaptou aos hábitos cariocas...

 - Sempre foi um paulista desterrado - concordou alguém.

 - Desterrado? - estranhou um terceiro. - Mas vivia lá e cá...

 Foi nesse ponto que entraram no velório, aos prantos, uma senhora e uma moça, ambas vestindo jeans iguais e carregando as grandes bolsas de couro com que tinham viajado de São Paulo.

 - Carioca! - gritou a mais velha, precipitando-se na direção do caixão. - É você, Carioca?

 - Papai! - gritou a mais moça, debruçando-se sobre o solene defundo.

 Consternação geral.

 Dr. Lupércio, o advogado da família, conseguiu que as duas mulheres de José se reunissem em algum lugar afastado da câmara ardente. O mais difícil foi arrancar a segunda mulher - na ordem de chegada do velório - de cima do caixão. Em pouco tempo confirmou-se o óbvio. José tinha outra família em São Paulo. A filha tinha 15 anos. A mulher do Rio foi seca:

 - A legítima sou eu.

 - Meu bem... - começou a dizer a outra.

 - Não me chame de seu bem. Nós nem nos conheçemos.

 - Calma, calma - pediu o dr. Lupércio.

 - Agora eu sei por que o Carioca nunca quis me trazer ao Rio... - disse a outra.

 - O nome dele é José. Ou era, até acontecer isto - disse a primeira, não sabendo se falava da morte ou da descoberta da segunda família.

 - Lá em São Paulo toda a turma chama ele de Carioca.

 - "Turma"? - estranhou a primeira. No rio eles não tinham turma. Raramente saíam de casa. Um ou outro jantar em grupo pequeno. Concertos, às vezes. Geralmente estavam na cama antes das dez.

 Na câmara ardente, o filho de José evitava o olhar da sua meia-irmã. Os dois eram parecidos. Tinham os traços do pai. A moça, com os olhos ainda cheios de lágrimas, comentara que aquela era a primeira vez que via o seu pai de gravata. O filho ia dizer que não se lembrava de jamais ter visto o pai sem gravata, mas achou melhor não dizer nada. Era uma situação constrangedora.

 - Pobre do papai - disse a moça, soluçando. - Sempre tão brincalhão...

 O filho entendia cada vez menos.

 O apelido dele, em São Paulo, era Carioca. Descia em Congonhas todas as quintas-feiras de camisa esporte. No máximo com um pulôver sobre os ombros. Uma vez chegara até de bermudas e chinelos de dedo. Gostava de encher o apartamento de amigos, ou sair com a turma para um restaurante ou uma boate. E se alguém ameaçasse ir embora, dizendo que "amanhã é dia de trabalho", ele berrava que paulista não sabia viver, que paulista só pensava em dinheiro, que só carioca sabia gozar da vida. Com sua alegre informalidade, fazia sucesso entre os paulistas. Inclusive nos negócios, apesar do mal-estar que causava sua camisa aberta até o umbigo, em certas salas de reuniões. Todas as segundas-feiras voava para o Rio. Dizia que precisava pegar uma praia, respirar um pouco.

 - Você não estranhava quando ele voltava do Rio branco daquele jeito? - perguntou a legítima.

 - Ele dizia que não adiantava pegar uma cor na praia, ficava branco assim que pisava em Congonhas - disse a outra.

 As duas sorriram.

 Mais tarde, em casa, o dr. Lupércio refletiu sobre o caso.

 - Um herói de dois mundos - sentenciou.

 A mulher, como sempre, não estava ouvindo. O dr. Lupércio continuou:

 - No Rio, era o paulista típico. Uma caricatura. Sim, é isto!

 O dr. Lupércio sempre se agitava quando pegava uma tese no ar com seus dedos compridos. Era isso. No Rio, ele era uma caricatura paulista. A imagem carioca do paulista. Em São Paulo era o contrário.

 - E mais. Quando fazia o papel do paulista proverbial, no Rio, era gozação. Quando fazia o carioca em São Paulo, era estratégia de venda.

 O advogado, no seu entusiasmo, apertou com força o braço da mulher, que reclamou "Ai, Lupércio!".

 - Você não vê? Ele estava sendo cariocamente malandro quando fazia o paulista, e paulistamente utilitário quando fazia o carioca. Um gigolô do estereótipo! Uma síntese brasileira! Mas qual dos dois era o verdadeiro José?

 Duas viúvas dormiam sozinhas. A do Rio sem o seu José, aquela rocha de critérios e responsabilidades em meio a inconseqüência carioca. A de São Paulo sem o seu Carioca, aquele sopro de ar marinho no cinza paulista.

  As duas suspiraram.


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