Resenha de autoria pessoal a partir do texto de Pierre Nora.
No texto Entre memória e história - a problemática dos lugares, Nora discorre sobre a criação de lugares de memória como substitutos da vivência da memória, como pode ser explicitado no trecho: “há locais de memória porque não há mais meios de memória”. O argumento parte da definição de memória para o processo de invenção da história, sua metamorfose dentro da sociedade historicizada e para a criação de lugares de memória no contexto da França.
A partir do trecho “...memória verdadeira, hoje abrigada no gesto e no hábito, nos ofícios onde se transmitem os saberes do silêncio, nos saberes do corpo, as memórias de impregnação e os saberes reflexos e a memória transformada por sua passagem em história, que é quase o contrário: voluntária e deliberada. Vivida como um dever e não mais espontânea.” fica claro que, para Nora, a memória em si é definida como um processo, algo que se transforma a cada vez que é experienciado, intrinsecamente ligado aos grupos humanos. É individualizada e ainda assim plural, coletivamente produzida e individualmente significada, além de estar ligada a espaços, objetos, gestos e imagens. Nesse sentido, as lembranças das quais a memória se constitui são vagas, carregadas de afeto e moldadas pela subjetividade de quem a está produzindo. A história, por sua vez, é introduzida como a versão unificada e ao mesmo tempo universal, se propõe a contar fatos de forma neutra, embora continue limitada à visão de mundo de quem está oficializando, e foca na temporalidade e relação entre acontecimentos. A partir desse ponto de vista, a história esvazia os objetos, imagens, símbolos do que os faz lugares de memória, tentando trazer para a concretude, o arquivo, o material, enfim, à obviedade, o que era fluido, mutável, imediato e espontâneo, relacional. A memória vivendo apenas de referências tangíveis.
Nora traz que onde se pretende conhecer toda a história se perde a memória, o que remete ao ofício dos grandes museus europeus como o British Museum e o Louvre, que envolve a conservação (e prisão) de artefatos tradicionais de povos não-europeus e sua exibição cujo acesso é barrado economicamente, para contar sua história, retirando a memória desses povos de seu lugar, esvaziando suas tradições para contar uma história limitada em conteúdo, supostamente neutra e essencialmente colonialista. Esse exemplo se refere à forma como a memória em si é abordada pela história, não sendo formadora do processo histórico, mas objeto dele.
A escrita da história, portanto, deixa de ser territorializada e se propõe a abarcar o todo, tomando o que entende como memória por objeto de estudo. Enquanto a memória está ligada à intimidade e vive uma transmissão silenciosa de conhecimento, no saber do corpo e do hábito, a história é a reconstituição de acontecimentos, deliberada, não-espontânea, vivida como dever, e a isso está relacionada a criação de lugares de memória. Estes, por sua vez, podem ser datas comemorativas que não envolvem mais comemoração ou ação efetiva, monumentos aos mortos ou a momentos históricos, memória na qual não se habita mais, não se vive mais, foi institucionalizado, embora ainda viva no campo do simbólico. Nisso, hoje em dia a memória foi ressignificada para caber na história. A obsessão por registros históricos, por exemplo, não é vista como uma prática social, mas como uma obrigação das instituições e dos indivíduos, chamada de memória-prótese.
A partir do que foi abordado, compreendemos a existência da memória-arquivo, memória dever, e agora: memória distância. O sentimento de passado se dá quando há diferença entre este e o presente, e do presente com relação ao futuro. Como o presente não é mais visto como um rearranjo do “passado” que se ressignifica no cotidiano, é projetada uma distância em relação ao que já foi, esse “já foi” perdendo seu caráter de memória e virando história no sentido de registro, de arquivo e de intencionalidade: a memória não está presente em todos os momentos, mas fica guardada e é acessada em momentos específicos, através de objetos, signos, escritos. Quando se refere a como esse processo se deu na França, o autor aborda a forma como a história da frança é contada aos jovens e como os lugares de memória e seu legado formam uma imagem estereotipada do país, que não se dá em continuidade no presente e ao mesmo tempo foi impossibilitada de se desenvolver em concordância com ele.
Apesar do argumento, o autor destaca a factual necessidade da criação dos lugares de memória, argumentando que quando a memória não está mais em todo lugar, não estará em lugar nenhum se este não for estabelecido. É feito, portanto, um esforço consciente para manter viva a memória (em formato histórico) para que ela não se perca quando a vida se torna padronizada e “neutra”, quando a intimidade e o saber silencioso ou a oralidade não são o suficiente para manter a memória viva.
Comments
Displaying 0 of 0 comments ( View all | Add Comment )