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Category: Life

Sobre o Recorte de Jornal na Capinha do Meu Celular

Todos os dias acabo me lembrando de uma história um pouco estranha da minha adolescência, pode se dizer que é até meio mórbida ou imoral, mas guardo ela com carinho. Em agosto de 2019, durante meu segundo ano do ensino médio eu estava subindo a minha rua e notei um jornal com um anúncio de cigarro na garagem de uma casa abandonada. O anúncio era o seguinte: Uma logo da marca enorme e abaixo, três mulheres com cabelos enormes e sutiãs pontudos. Como uma garota que adora velharia, já notei que se esse anúncio de cigarro existia era porque esse jornal é pré-anos 90 (já me animei) e como as garotas estavam de sutiãs pontudos, esse jornal pode ser dos anos 60 para trás (gritos, desespero). Naturalmente fui fuçar toda a papelada jogada naquela garagem.

Eram revistas, jornais, recortes, livretos, contas, documentos, fotografias e tudo mais. Os recortes realmente pareciam desse time-frame do final dos anos 60 e comecinho dos anos 70. Muitos recortes da jovem guarda e alguns dos mutantes (eu estava no auge da minha fase mutantes então surtei). Além dos recortes de revistas e jornais também tinha uma Revista Amiga inteira com a Regina Duarte na capa e um especial em 16 paginas com tudo sobre a TV colorida, uma revista com fotos de natal do Roberto Carlos cabeludo, um livreto da jovem guarda e mutantes chamado "Diário intimo com meus ídolos" (Esse tinha direito a capa dura), uma edição da zaz-traz especial sobre a vida de Agnaldo Rayol e muito mais que nem consegui fotografar, tudo novinho e bem cuidado. Todos os dias depois da aula, eu ia naquela casa fuçar as coisas dessa fangirl aposentada por entre as grades do portão. Nunca tive coragem de levar nada, mas também não tinha pudor nenhum em ficar revirando tudo e ainda tirando fotos. Um certo dia enquanto procurava qualquer coisa dos Beatles, achei o RG da moça; Ela era uma imigrante da Lituânia, chegou aqui ainda menina e estudou no Ginásio Emile de Villeneuve quando ainda era só para meninas (Vi uma foto da turma). Tinha um RG expedido em um DOPS, pesquisei o nome do diretor do órgão e pasmem: me apareceu páginas sobre a Operação Camanducaia, ele estava envolvido, pesado. 

Nos fundos da garagem tinham mais coisas ainda, fitas VHS, livros e um canecão de viking fora de alcance, mas que eu precisava ver de perto. Como uma adolescente burra e inconsequente comecei a planejar com minha amiga como iriamos invadir aquela casa, no caso, garagem. Depois de muitos tutoriais de como abrir cadeados com grampos de cabelo fomos para a ativa num dia bem chuvoso, mas é claro que não deu certo; No dia seguinte quando estávamos prestes a tentar de novo um gari nos perguntou se sabíamos a história da casa, que é claro, não sabíamos. Basicamente, naquela casa morava uma senhora sozinha, sem família e com muitos gatos; Há 5 anos essa senhora faleceu em casa, nem notaram o sumiço até o cheiro subir, removeram o cadáver e as coisas ficaram por lá mesmo. Mais tarde confirmei com meus irmão mais velhos, que conheciam mais pessoas na rua se aquilo era verdade, e era mesmo. No dia seguinte, todas as coisas da garagem que eu podia alcançar estavam mais afastadas, acho que o gari nos dedurou para a administração do condomínio.   

Bem, a aventura adolescente tinha acabado, e toda a história era meio mórbida demais mesmo. Mas um dia estava chovendo muito, e enquanto passava pela casa vi um recorte ensopado na calçada. Me aproximei e pasmem: finalmente um recorte dos Beatles, inteiteirinho!! Pela aparência deles devia ser de meados de 67, e esse recorte eu me permiti a levar pra casa, já que estava fora da casa "achado não é roubado". 

Não sei como o recorte chegou a calçada, já que as coisas estavam um pouco mais para trás na garagem. A explicação que me faz mais sentido é a ventania do temporal ter trazido esse "presente", agora a explicação mais mística é que esse foi realmente um presente. Não conheci essa senhora, não consigo mais lembrar do nome dela, não sei quem se lembra e nem sei se ela foi uma boa pessoa; Mas sei de onde ela veio e onde estudou, sei que tínhamos o mesmo gosto para moda, música e ídolos. Talvez por esses gostos em comum, minha colega de fã-clube, assídua leitora das revistas Amiga e Contigo, de família talvez fugida da ocupação, aluna de um colégio de meninas, se viu na minha "eu" de 16 anos e me deu esse mimo. Assim que o jornal secou, novinho em folha e com um cupom para a compra de um massageador no verso, coloquei ele na capinha do meu celular, e assim ficou até o começo dessa semana, quando contei essa história para os meus colegas da faculdade e me toquei que doeria mais perder esse pedacinho de papel do que meu celular inteiro. Agora ele está seguro em casa em um porta-retrato. 

Enquanto escrevia esse texto procurei as fotos da garagem, e consegui achar fotos com link aqui na net de itens que estavam lá dentro.


revista_amiga

revista amiga com o especial de 16 páginas sobre a TV colorida.


diario_com_meus_idolos

O grandioso Diário íntimo com meus ídolos 

meninas_emilieuma foto de turma antiga do ginásio Emilie de Villeneuve, não é a da casa, mas lembra! 


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