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Category: Books and Stories

Otelo, a representação da maldade humana e a tragédia shakesperiana

 O livro "Otelo, o Mouro de Veneza", de William Shakespeare, foi o livro solicitado pela minha professora de Literatura durante esse trimestre. Confesso que não esperava gostar tanto assim da leitura, da construção dos arcos e das personagens. Eu já havia lido Shakespeare antes (Romeu e Julieta) mas, em comparação, a experiência foi infinitamente melhor! Interessou-me muito o modo como o autor trabalhou questões éticas, morais e sociais que perduram até os dias de hoje, criando debates acerca das personagens. Nesse texto não pretendo resumir a trama.

"Ficai certo: eu não sou o que sou."

 Em primeiro lugar, Iago e sua delegação pela maldade sob a ótica de Shakespeare me chama muito a atenção. A história se inicia com Iago querendo se vingar de Otelo por não ter concedido a ele a posição de lugar-tenente. Mas, ao longo da trama, ele sequer se lembra da sua motivação. Ele sequer "faz por onde" para conquistar tal mérito. O seu jogo ao longo de toda a trama é fazer o mal por si só, e, ao fim da trama, ele não parece derrotado ou demonstrar o fracasso em que estava; ele estava sereno, como se sua tarefa estivesse perfeitamente concluída.

 Outro fator é que a existência de Iago depende exclusivamente de Otelo, Cássio e Rodrigo, dentro da trama. Sem tais personagens, ele não teria razão para existir. Tudo o que ele faz ao longo dos atos contempla a ruína de Otelo e Cássio, pelo meio da manipulação da mente fraca de Rodrigo. A sua clássica fala "eu não sou o que sou" não só evidencia sua vida de aparências como, também, é uma negação da própria fala de Deus "Eu sou o que sou" - como o próprio demônio.

 Para concluir a discussão breve sobre Iago e complementar a negação da frase divina, ele é apelidado como "cão de esparta". O termo pode ser uma referência a um personagem da mitologia grega, o cérbero, o cão de três cabeças que guardava a entrada do submundo. Existem e existirão muitas pessoas como Iago ao redor do mundo. Pessoas que valorizam uma bela aparência mais do que um interior saudável.

"Um nome imaculado, caro senhor, para a mulher e o homem é a melhor jóia da alma. Quem da bolsa me priva, rouba-me uma ninharia; é qualquer coisa, nada; pertenceu-me, é dele, escravo foi de mil pessoas. Mas quem do nome honrado me espolia, me priva de algo que não o enriquece, mas me deixa paupérrimo"

 Iago acredita que, mesmo paupérrimo, sem propriedade, sem nada, mas com status, pode-se conseguir qualquer coisa. A reputação e uma boa imagem podem concedê-lo qualquer coisa. Numa sociedade em que o patrimônio era ainda mais valorizado que hoje, tal discurso pode ser considerado um tanto radical, em minha opinião. Propriedade era sinônimo de poder e motivo para uma valorização social. Mas, de modo independente do meio, se houvesse uma boa reputação, poder-se-ia adquirir quaisquer honrarias, todo o dinheiro e toda a glória que há. Tudo isso torna o alferes tão complexo que não se trata apenas de uma pessoa maldosa, mas, sim, do próprio mal.

“Vive feliz o esposo que, enganado, mas ciente do que passa, não dedica nenhum afeto a quem lhe causa o ultraje. Mas que minutos infernais não conta quem adora e duvida, quem suspeitas contínuas alimenta e ama deveras!”

 O relacionamento de Desdêmona e Otelo é outro fator intrigante para mim em toda a trama. Na primeira cena, tudo soa misterioso para nós, leitores. Sabemos que Brabâncio é extremamente contrário à união, que a mulher havia fugido, e que Otelo é estrangeiro e negro - fator principal para a rejeição do pai. Entretanto, quando descobrimos a motivação de Desdêmona para fugir com o Mouro, nota-se que ela não se apaixona por Otelo. Eles sequer se conhecem! Isso era comum para a época mas, se ela tinha de fugir para casar-se, certamente havia uma paixão intensa entre os dois - mas não verdadeira.

 Desdêmona revela ter se encantado por Otelo ouvindo suas histórias, encontrando força, resistência e um homem de ação nele - algo diferente de todos os nobres que certamente tentavam conquistá-la, como Rodrigo. Otelo, por sua vez, apaixona-se por Desdêmona porque sequer sente-se merecedor do mérito. Um homem estrangeiro e negro não era visto com olhares positivos. Então, o fato de Desdêmona reconhecer sua valentia, demonstrar afeição e estimá-lo era extremamente significativo para ele, para além de seu prestígio e reconhecimento no senado veneziano.

 Agora, creio que o questionamento que trarei é o mais intrigante de toda a trama. Por que Otelo preferiu acreditar em Iago a confiar na fidelidade de Desdêmona? Pessoalmente, creio que Otelo, além de sentir-se ainda mais vulnerável e ridicularizado, sentiu que sua honra fora ferida. Em uma sociedade patriarcal, na qual as mulheres eram 'objetos a serem conquistados', a honra e dignidade masculina eram objetos centrais em um relacionamento. A traição não era inadmissível, mas, ferir a honra masculina era. Assim também é retratado no conto "A Cartomante", de Machado de Assis. Fica a dica de leitura! 

 Portanto, o relacionamento enigmático entre os protagonistas também é um ponto crucial para explicar a vulnerabilidade de ambos quanto às manipulações de Iago. O próximo ponto também contemplará uma razão para o fácil domínio do personagem sobre os demais da trama.

“O ciúme é monstro que se gera em si mesmo e de si nasce.”

 Essa última colocação é mais breve que as demais. Mas, para mim, ainda é relevante para compreender a trama. Todos os personagens são extremamente influenciáveis, sentimentais e orgulhosos. Digo isso em relação às protagonistas. Por exemplo, pode-se discutir como Otelo é orgulhoso, mas, ao mesmo tempo, extremamente vulnerável emocionalmente.

 Enfim, creio que essa afirmação é muito mais pessoal que as duas anteriores. O grande motor da trama é o ciúmes, motivando o assassinato de Desdêmona e a tentativa de assasinato de Cássio. Isso reflete o orgulho de Iago e Otelo, principalmente.

“A reputação é um apêndice ocioso e enganador; obtido, muitas vezes, sem merecimento, e perdido sem nenhuma culpa.”

 A obra de Shakespeare tem um fim trágico - assim como todas as principais peças escritas pelo autor - e aborda a maldade, as motivações humanas e o perigo das aparências. Recomendo a leitura e reforço a necessidade de ler os clássicos da literatura mundial!

Referências - Assistam!
https://www.youtube.com/watch?v=4r3ZAVbQ_KE
https://www.youtube.com/watch?v=p6CJIgqhAa0


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▄︻デ══━一💥𝓼𝓾𝓰𝓪𝓻꩜ .ᐟ

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Adorei como vc conseguiu descrever este livro de maneira que realmente aprofunda seu conteúdo


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obrigada!

by ˙⋆꩜ karen; ; Report