Desde a infância, nunca fui alguém sociável, não por medo ou timidez, e sim por divergências cognitivas. Sempre enxerguei e senti o mundo de um jeito próprio e não abria mão disso. Defendia minhas convicções até o limite. Relacionar-se, porém, é buscar harmonia com o outro: somos como notas musicais; sozinhas, são apenas sons soltos, mas juntas se tornam música. Lembro das poucas aulas de piano que tive com um conhecido de quem hoje pouco sei sobre. Enquanto ele explicava teoria musical, eu ficava encantado com a complexidade de tudo. Relacionamentos funcionam do mesmo modo: não importa o instrumento, não importa se você é iniciante ou maestro, para que a música exista é preciso haver harmonia e, antes dela, um propósito.
Na minha infância, essa era justamente a minha maior dificuldade. Minhas ações não tinham propósito. Eu era apenas uma criança cheia de energia e ideias, que compartilhava tudo apenas com minha família e comigo mesmo. O mundo lá fora me parecia estranho. Minhas interações eram quase forçadas, nada naturais. Muitos diziam que eu não tinha empatia, mas isso nunca foi verdade. Eu sentia, e sentia muito. Apenas tinha meu próprio jeito. Ficava frustrado, e isso me deixava raivoso, afastando as poucas oportunidades que surgiam.
Na adolescência, isso se intensificou. Eu não me sentia inferior nem envergonhado por ser quem era, mas as pessoas ao meu redor se importavam demais. As cobranças eram infinitas; algumas tão ilógicas que pareciam feitas de propósito para me afastar. E justamente nessa fase essencial para a construção da identidade, tudo isso me marcou profundamente. Negaram-me a vida de alguém comum, mas eu nunca abaixei a cabeça. Mesmo quando excluído, permaneci firme. Sei que errei diversas vezes; pessoas que gostavam de mim se afastaram por birras minhas, mas nunca cometi injustiça. Sempre defendi o que acreditava de forma justa.
Durante a pandemia, longe do ambiente escolar que tanto me atormentava, comecei a refletir sobre minhas atitudes. Algo em mim morreu naquela época, ao mesmo tempo em que outra parte nascia. Mesmo com raiva, mesmo desejando vingança contra aqueles que me machucaram e contra o mundo que não me acolheu, eu sabia que precisava seguir em frente. “Me tornar uma pessoa melhor” era o que eu repetia para mim mesmo. Eu não podia permitir que o ressentimento me dominasse, pois ele amarga o coração e nos prende numa prisão feita das dores do passado. Quando deixamos que isso tome conta, ficamos cegos e passamos a acreditar que nunca devemos ser bondosos com os outros, já que o mundo não foi bondoso conosco. Mas isso é um engano. Eu nasci para amar e agir com justiça e bondade. Se eu não fizer isso, como teria coragem de esperar o mesmo?
A vida deve ser vivida com bondade, sempre. Por isso, deixei para trás toda a dor que me foi infligida e, com o tempo, consegui perdoar.
Quando retornei à vida escolar, agora em uma escola nova, um ano depois, senti algo totalmente diferente. Pela primeira vez, parecia que eu estava vivendo algo meu. Ali, eu criei uma música, uma tão bela que ainda posso ouvi-la na memória, e sempre me emociono quando lembro da melodia. Não falo apenas dos amigos que fiz, mas de todas as pessoas que encontrei diariamente, cada uma contribuindo, à sua maneira, para essa composição que se tornou a minha vida.
Aprendi que as dores do passado podem ser curadas pelas alegrias do presente, mas só é possível viver plenamente o agora quando se teve coragem de suportar a dor que veio antes. Tive que perder para poder ganhar; tive que atravessar o sofrimento para encontrar significado. Só se torna verdadeiramente si mesmo quem enfrenta a própria angústia e escolhe seguir adiante apesar dela. Foi exatamente isso que vivi.
Hoje, na faculdade, entendo tudo com mais clareza. Ao encarar aquilo que me feriu, ao aceitar minhas vulnerabilidades e ao escolher continuar, dei meu próprio salto para a existência. Compreendo que crescer é decidir quem você quer ser, mesmo quando o mundo tenta te impedir. E, mesmo quando me sinto perdido, é nesse caminho que sempre me encontro no final.
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