⊶⊶⊶⊶⊶
Fazia frio lá fora.
Pela janela, via as árvores balançarem com o soprar do vento forte. O céu estava escuro, alguns risquinhos já pincelavam no vidro, indicando a forte chuva que viria em breve. O homem alto, tão magro e pálido, sentou-se na poltrona que ficava ali, de frente à fenestra, na espreita de receber a visita do indivíduo branquelo outra vez. Ele, então, fechou os olhos e respirou fundo. Tão fundo que sentiu a caixa torácica reverberar.
Uma trovejada. Olhos abertos. Serenos e calmos, mas que estavam perdidos. Deu duas tosses, algumas fungadas e suspiros doloridos; há quem diga que os vampiros não adoecem, ser desmorto é o mesmo que viver em uma febre constante. Sentia-se tão doente quanto quando era vivo. De repente, ele lembrou-se daquilo que queria esquecer: seu passado tortuoso. Não, mais que isso! A vida que foi deixada para trás.

Doía muito. Doía o corpo, a doença, a fome… doía muito. Estava ali, confinado naquele quarto. Não conseguia se mover, os ossos doíam e não conseguia mais se manter em pé. Lembrava-se do estágio inicial da doença, quando nenhuma dor era presente, quando podia brincar nos dias ensolarados com as outras crianças da vila. Foi envelhecendo, adoecendo mais, emagrecendo mais. Havia virado um saco de ossos e dor.
Sua mãe, que o nomeou de Vivian em sua própria homenagem, saiu cedo de casa. Foi buscar ervas medicinais para aliviar a dor do filho. A atmosfera daquele vilarejo foi se tornando cada vez mais pesada e triste, todos que moravam ali desejavam que o fruto do casal apaixonado se recuperasse. Alguns até já prestavam condolências, ouvindo as fofocas pela metade e acreditando que o jovem já havia morrido.
De certa forma, já estava morto. Só faltava fechar os olhos.
Vivian não queria morrer, mas já havia aceitado. Não tinha forças para lutar. Se sentia triste pelos pais, mas não tinha nada que pudesse ser feito para evitar um destino hereditário tão cruel. Vários curandeiros visitavam a casa, numa tentativa de encontrar uma cura, mas a resposta sempre era a mesma: ele vai partir.
Não importava o que tomasse, a dor não ia embora, os sintomas não melhoravam e a morte estava chegando há cada segundo que passava. Sabia que não passaria daquela noite.
Lembrava de quando a sua mãe cuidava de seus ralados, lembrava de quando seu pai o levava para pescar na beira do rio e lembrava da deliciosa sopa da falecida vovó, que também faleceu da mesma doença. Destino. Às vezes, pensava que seus pais queriam sofrer, e por isso sua mãe deu à luz, sabendo que não tinha como escapar de uma doença que passava de geração para geração.
Ouviu o barulho da porta ranger. Alguém havia chegado. Pelo som dos passos, Vivian sabia que era sua mãe.
“… Filho? Posso entrar?” Sua mãe disse. Não obteve resposta, mas ela entrou mesmo assim.
”… Mãe…...” Vivian chamou, numa voz baixa, quase inaudível. Sua mãe sentiu o peito quebrar.
"Meu filho, meu filho… eu estou aqui, sim? A mamãe está aqui! Me diz, dói? Você está com dor? Eu preparei uma sopa ótima e…" Uma tosse. Sangue. Vivien, a mãe, ficou estática por alguns segundos.
Vivian havia perdido o brilho dos olhos.
"….. Eu preciso ir…" Voltou a fechar os olhos, sereno, em paz. Sempre sereno. Sempre em paz. Estar doente era daquele jeito. Havia se acostumado à se sentir um peso, sabia que atrapalhava outras pessoas e sempre pedia desculpas mais do que o normal.
Para Vivian, ser tão paciente era uma maldição. Era a única coisa que podia ser. O que o restava era se despedir da mãe, daquele mundo cruel e ser livre de toda a dor e fome que sentia. Queria ser livre e só a morte poderia dar a sua liberdade.
Sua mãe, que não parava de chorar, se jogou em cima da cama e abraçou o corpo do seu filho, que mesmo com seus vinte e quatro anos, ainda era sua eterna criança. De repente, a mulher se lembrou de uma conversa que ouviu no vilarejo há alguns dias atrás.
✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞
"Você viu? Dizem que há um grimório nas ruínas jesuítas ao norte da floresta que carrega feitiços sombrios capazes de realizar os seus pedidos…" Uma senhora estranha disse para a outra, que tinha o rosto fortemente maquiado. Ambas pareciam ter sessenta e poucos anos, mas eram bem arrumadas.
"Não seja boba, Lady Ophelia. Grimórios são apenas as falácias dos loucos." Vivien concordou mentalmente, mas não deixou de ouvir a conversa.
"Senhorita Keys, eu sei do que estou falando!" Começou a bufar, como uma menina mimada, mas depois voltou a falar. "Fiquei sabendo da história de uma garota que foi para lá o encontrar, mas isso faz um tempo. Ela pode estar vivendo ótimas aventuras agora!"
"Ou pode ter morrido de frio, de fome, de sede. Pode ter sido devorada, pode ter sido mordida por algum bicho peçonhento ou canibais podem ter a comido viva!" Disse Lady Ophelia, que parecia ainda menos interessada nas bobagens da colega.
✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞✟✞
Naquele momento, uma ideia surgiu na cabeça da mãe Vivien: é possível salvar um quase morto de uma doença incurável?
Comments
Comments disabled.