CONFISSÃO PARA AQUELA SEM NOME
Por mim, Horpellin.
Então, manifestou-se da noite: uma pele branca, cabelos negros... chamou minha atenção.
“Como alguém tão bela pode viver às margens da madrugada?”, supliquei.
Encantado fiquei — não por suas curvas, suas vestimentas ou mesmo seu corpo por si só — mas por sua voz. Sua voz encantou-me como o som de uma flauta, daquelas que, certa vez, tentaram hipnotizar uma serpente... e foram mordidas.
Não sou ninguém, não sou nada, nunca serei nada. Mas assumo: sua voz fez-me sentir ser algo naquele momento — não de forma momentânea, mas como algo indelével, algo estável, algo que, mesmo breve, foi marcado pela presença. Como uma música que se escuta apenas uma vez no rádio antes de perder seu nome.
Me pergunto: em qual versão minha pude ter você como amiga? Como companheira? Ou mesmo como noiva? São perguntas que, muitas vezes, não possuem respostas — da mesma forma que seu olhar não foi correspondido pelo meu.
De um corpo tão delicado e uma voz tão doce, pergunto-me desde o momento em que te vi pela primeira vez:
“Quantas vezes o mundo já lhe machucou? E quantas vezes ainda vai te machucar?”
Espero que muitas. Pois evoluímos com os erros. Evoluímos do desejo ao raciocínio em questão de horas. Espero que sofra muito. Sofra, sofra, sofra… sofra mais que seus irmãos e familiares, pois só assim terás o direito de ver como esse inferno de mundo funciona. Poderás usufruir de todo o suco deste mundo, fumá-lo como se fosse tabaco e, no final, bater palmas, rir, xingar, amar tudo o que desejares — com a certeza de que é aquilo que queres para o teu sempre, sem a intervenção de ninguém em teu rumo.
Garota tão bela, parecida com uma boneca de porcelana... o que deve esconder? Quais são seus medos? Suas angústias? Seus gostos? Seus desejos mais obscuros? O que há dentro dessa cabecinha? A quem te visse, apenas enxergaria tuas curvas e tua carne. A mim, um idiota, um cachorro, ou mesmo um zé-ninguém, veio a admirar algo em ti que não esperava.
Nunca irás ler esta confissão, pois, futuramente, estarás morta em meus pensamentos.
Mas, de todo modo, queria que pelo menos soubesse que o estranho que vistes no
mercado, achou muito bonita sua voz.
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