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Category: Dreams and the Supernatural

Bon-Bon - Contos do Grotesco e do Arabesco (Edgar Allan Poe)

O Banquete de Bon-Bon

 Entre a Filosofia e o Abismo.



Texto contém traços de filosofia mal cozida e atração homoerótica por entidades sobrenaturais...

Ah, Bon-Bon... Teu nome ainda ecoa em meus pensamentos — e… dentes. Como um doce azedo, grudado entre o molar e a alma. Era-te um cozinheiro de almas, sim, mas que jamais soube o verdadeiro sabor da própria carne. Tua cozinha-cheia-de-trevas cheirava a toucinho queimado e tratados filosóficos mofados — e nesse odor, entre panelas que cantavam lamentos agudos, tu te perdeste na própria receita. Em meio à imundície de um restaurante que retratava tua própria mente.  


Morreste. Não como herói ou vilão, mas como ingrediente.

  
O Cavalheiro (sim, chamemos-lhe assim, pois "Diabo" é termo pequeno para tamanha vastidão) chegou envolto em panos que nem seus eram. Suas roupas — largas, sujas, emprestadas de cadáveres mais dignos — pareciam engolir a luz dos candelabros. Não tinha olhos, mas via tudo por dentro. Um ser completamente onisciente Seu rosto? Sem olhos, sorria com os dentes da própria escuridão.  



Quando falou, tua filosofia escorreu da mesa como gordura fria.  
"Bon-Bon", sussurrou, "tua mente é um caldo ralo onde até Platão se afoga."  


E riu! De Aristóteles, cujos espirros no inferno eram a única verdade que restara de seu grande intelecto. De Epicuro, cujos prazeres agora se reduziam a gotas de suor em chamas eternas. De Platão — teu Platão, nosso Platão — cujo "A Mente é uma Aurora" mostrava-se agora, no inferno, apenas como "A Mente é Imaterial". E o que é imaterial no reino da podridão?  


Nada. Menos que nada.  


Bon-Bon tremia. Ofereceu sua alma como quem oferece um osso a um cão. Ele ergueu o que deveria ser uma sobrancelha (mas era apenas um vinco na escuridão) e cuspiu a própria verdade:  
"Para quê? Já está rancida."  


E então soube: as almas não são eternas. No seu inferno particular, apodrecem em duas horas — três, se tiverem sorte. Os grandes filósofos? Viraram patê. Os santos? Caldo ralo. E Bon-Bon? Apenas mais um prato esquecido no cardápio cósmico.  


Morreu ali mesmo. Não por vender sua alma. Não por dá-la. Mas por perceber que ela nunca valera o preço da travessa em que foi servida

 
O Cavalheiro limpou seus dedos longos (quantos? Sete? Dez? A luz mentia) em teu avental manchado de tinta e pretensão, e partiu. Deixou apenas o eco de sua risada e o cheiro de enxofre misturado com o último suspiro.

  
O que resta quando até as almas mais brilhantes viram meros petiscos no banquete do eterno? Talvez apenas o silêncio. Talvez o riso do Abismo. Ou talvez — apenas talvez — o momento em que, como Bon-Bon, me olho no espelho e vejo não um filósofo, não uma poeta, mas um simples corte de carne, pendurado no açougue do cosmos. 

 
*Este texto não é uma análise*. É um cadáver dissecado com amor.* Bon-Bon, perdeu-se na própria receita, mas ganhou a eternidade — não como alma, mas como mito. E eu, aqui, apenas assino: mais uma comensal nesse banquete de absurdos.  


Se algum dia encontrar um restaurante onde os livros sangram e as camas são sepulturas disfarçadas, peço o menu em voz baixa. E nunca, jamais, discuto metafísica com o sommelier. #Dica




Quase me curvei ao Cavalheiro. Quem não se curvaria diante de tanta elegância putrefata?  
A cama no restaurante me assombra. Era um leito ou um altar? E se for tudo a mesma coisa?  
E o Grande Platão, que no inferno é a piada mais divina que o Diabo já inventou. E eu ri.
Como ri!  


Para os Fortes de Estômago:
Assim termina nosso jantar, carnívoros de almas. Bon-Bon foi servido, digerido e esquecido. E eu? Apenas lambo os pratos, cúmplice no crime de existir.


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