"Cinzas no Vento”
--Crônica chula escrita por mim, Horpellin
A cidade não amanhecia — apenas clareava o suficiente para fingir que o tempo passava. Atenas, com suas ruas úmidas e becos que pareciam lembranças de pesadelos nunca sonhados, transpareciam a umidade pesada naquele início de dia.
Cael estava acordado há horas, mas se recusava a se levantar de sua cadeira. As janelas estavam embaçadas por dentro. Lá fora, o mundo parecia uma aquarela cinza.
Ele girava um cigarro entre os dedos, como se aquilo fosse resolver algo, mas não o acendia. Era parte de seu ritual pessoal. Havia dias em que a vontade vinha como um disparo, noutros, como hoje, era mais como um suspiro, que ainda baixo, parecia com uma voz que sussurrava:
"E se você acendesse só mais um para sentir que ainda está aqui?"
O som do relógio de parede já quebrado, ecoava tique-taques falsos pela casa.
Ao lado da escrivaninha, repousava um caderno surrado. Páginas escritas em letras desiguais, pensamentos soltos — confissões que nunca seriam lidas. E então, ele abriu uma página qualquer:
"Fumo para lembrar que respiro. Paradoxo ridículo, mas é o que resta quando não se quer dormir e também não se quer sonhar."
Cael fechou o caderno devagar, como quem encerra uma conversa íntima com a própria solidão. Ele se levantou, foi até a sacada, e acendeu o seu cigarro. A brasa iluminou brevemente seu rosto… Os olhos fundos… Pareciam transmitir o cansaço que não vinha do corpo, mas sim da alma já surrada.
Com tamanho desdém, observava os telhados úmidos, as antenas tortas, e um gato que ali atravessava uma mureta como se soubesse todos os segredos da vida.
Por um segundo, tudo parecia em paz. E então, veio o pensamento de sempre:
"Quantas versões de mim já morreram em silêncio, sem que ninguém notasse?"
Ele puxou a fumaça e soltou devagar. Ainda estava ali.
Ainda era ele, mesmo que quebrado em partes, nas quais, o mesmo escondia embaixo de um tapete velho.
E naquele silêncio, ainda pairava seu velho desejo pela liberdade.
Ps: Passo meu tempo escrevendo crônicas e poemas, para quem e muito surrado pela vida, e uma boa forma de sê distrair ou mesmo expressar tantos seus desejos como seus sentimentos, Recomendo!
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