O Vazio do Ser: A Vida enquanto Semente

Olá, primeiro post aqui. Esse foi um curto ensaio que escrevi, espero que apreciem:


Do que se trata o ser? Não aqui num sentido puramente analítico, ontológico, metafísico, prosaico. Não, começo com a pergunta: o que é o ser? Em sua realidade, na prática e aplicação, na exteriorização de seu interior. Há um ímpeto por preencher tal pergunta com afirmações, valorações positivas sobre o que se faz, o que se tem e quais atributos o ente possui, mas e se por outro lado não houvesse no cerne do ser e posteriormente em sua teleologia o vazio? Uma nulidade não como um vácuo a ser preenchido, mas como anulação transcendental do ego.


Pode-se aqui contrastar realidades distintas com o passar do tempo e o desenvolver da técnica: o Cristo falava de semeadores, de agricultores, de sementes, de joio e de trigo. Hoje, a modernidade se tornou a máquina, o aço frio modelado nas forjas, em oposição a semente adormecida na terra macia. A escala aumentada da produção junto com o rápido consumo distancia cada vez mais o homem disto, cada vez mais desconectado da matéria — prima. Colhendo batatas em pacotes de alumínio em prateleiras, caçando sua carne em vísceras processadas e embutidas. Dentro dessa lógica, o consumir se torna o principal, e por consequência, a noção do existir, do ser. Quanto mais eu consumo, mais eu sou e mais eu existo, a cada nova compra, a cada nova coisa, eu me torno mais.


Nessa ânsia de possuir, nos tornamos obesos existenciais, buracos negros que atraem e sugam até a última gota do que nos cerca. E quem dera isso fosse limitado aos produtos enfileirados. Pois pior, transformamos em consumo as pessoas. Tornamos os relacionamentos voláteis, meramente simbólicos, como descartáveis. Isso quando se constrói de fato um, ao invés de apenas ficar, relações sem relacionamento, consumindo homens-produto como válvulas de escape (diga-se de passagem, um ótimo termo para descrição dessa realidade da técnica). Com isso, cavamos nossa própria sepultura e trazemos sobre nós a sombra da morte. Pois o que é a máquina se não a natureza morta e escravizada a serviço do homem? E poderia se dizer algo diferente da nossa situação?


Mas eis que a saída já se encontrava respondida antes mesmo que nossos primeiros pais caminhassem sobre o primeiro punhado de terra seca. Enquanto o homem era um sonho na mente de Deus, já havia muito antes disso um pequeno receptáculo de sentido, da centelha que explica para onde tudo se dirige ou deveria assim fazê-lo. Existem diversas, das mais variadas, em seus tamanhos e formatos, mas tomemos aquela que foi escolhida e retratada pelo Evangelho: o menor de todos os grãos, a semente de uma mostarda.


A semente é a chave da vida, não só em sua origem, mas como método, como práxis. Embora se conheçam hoje grãos menores, o fato é que a pequena mostarda ainda é um caso digno de nota. Sua estrutura é lançada no ventre do chão, soterrada no espaço que foi afofado para a receber. Nisso, a vida da semente acaba, mas é aí que começa. Para cumprir sua função teleológica, para realizar a causa de sua existência, é necessário que ela se esvazie, se anule, se torne nada, para que então dela possa sair o bom fruto. A nulificação é a verdade positiva da vida.


Quer estejamos falando de agricultura, ou quem sabe sobre a embriologia (onde os gametas se fundiriam, mas assim também acabando com sua existência singular), o processo da vida é um processo de anulação, de esvaziamento de um “eu” para uma nova forma florescer, uma síntese. Mainlander até chegou perto, mas o que deu início ao universo não foi o suicídio de Deus, mas seu esvaziamento, sua khenosis que o levou até a morte, mas que por isso mesmo resultou em sua retomada da vida. Portanto, a prática da vida daquele que busca encontrar o seu sentido é por meio dessa vida enquanto semente, um esvaziar-se de si, de no livrar-se de suas próprias ambições, seja em prol do Bem em si quanto do bem do próximo. Numa era de existência autofágica, com uma grande fome eterna por mais, a panaceia da alma se manifesta no não-eu, e, portanto, no Amor.


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Comments

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marcos olympiacos

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Do mesmo modo que a vida da semente se acaba para surgir a verdadeira vida ao que vai ser a planta de mostarda, assim somos nós perante as tragédias do mundo ao morrer (Seja no sentido batismal ou no sentido literal) somos chamados a verdadeira vida, a vida do amor, a vida do evangelho, a vida que Cristo quis que tivéssemos desde o começo da criação.
Excelente texto amigo, Paz de Jesus e o Amor de Maria, fico feliz em encontrar um BR aqui, e mais ainda por ser um possivel Cristão!


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Obrigado Irmão!
Também fico feliz em conhecer mais pessoas por aqui interessadas em filosofia, boa cultura e critianismo

by Markgaard; ; Report